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Temos a mania de reduzir tudo a um simples ‘sim’ ou ‘não’, ‘sou contra’ ou ‘sou a favor’. Nem sempre as coisas podem ser resolvidas dessa maneira e existem questões bem complexas que não devem ser tratadas com esse reducionismo. Aborto é uma delas.

Como cristã, não sou a favor de uma vida sexual promíscua e irresponsável. Não teria coragem de me expor ao risco de uma gravidez indesejada e, caso ela ocorresse, não teria coragem de tirar uma vida de dentro de mim (exceto em caso de estupro, óbvio). Mas qual é o meu lugar de fala? Falo de um lugar de mulher privilegiada, branca, de classe média, que teve tudo que precisava ao longo da vida. Lugar de quem teve acesso a boas escolas, estrutura familiar, instrução de mãe, instrução de igreja e acesso a informações. Lugar de quem nunca passou necessidade, de quem tem um casamento e um emprego estável e, principalmente, falo de um lugar onde uma gravidez indesejada seria amenizada pelo apoio da minha família, a qual eu tenho certeza de que não me deixaria sozinha e me daria todo o suporte que eu necessitasse. Todo esse contexto me dá segurança suficiente para afirmar que não, eu não faria um aborto. Mas será que todas podem dizer o mesmo?

Você já se colocou na situação de uma mulher pobre, de pouca instrução e sozinha, que de repente se vê grávida, sem emprego e sem condições nenhuma de cuidar de uma criança? Já pensou se você fosse uma adolescente de família desestruturada, que não tem uma mãe em casa para orientar e que engravidou do primeiro namorado? E se você fosse uma mulher viciada em drogas, que vive nos guetos, se prostituindo para sustentar o vício? E se o seu marido te estuprasse? E se você não tivesse nenhuma condição emocional ou psicológica de criar uma criança? São muitos os motivos que levam milhares de mulheres a abortar todos os anos, mas você não precisa concordar com eles. Precisa apenas ter respeito pelas decisões de cada uma, afinal, criar um filho exige muita renúncia, responsabilidade e, claro, tem um preço. Como podemos exigir que alguém tome essa decisão se não iremos dividir a responsabilidade?

Os outros lados

Mas essa discussão não tem só o lado da mulher, na verdade ela tem três lados e um deles é o dos homens. Por que os caras que não querem ter filhos transam sem camisinha? Por que eles se desobrigam da responsabilidade de ser pai e ninguém os condena com a mesma brutalidade como condena uma mulher que faz aborto? Por que a discussão se restringe às mulheres que engravidam sem querer e ninguém fala dos homens que engravidam mulheres sem querer? Por que quem tem obrigação de proteger o feto é só a mulher? E os homens que pagam para suas parceiras fazerem aborto, ninguém condena? E os homens-médicos que praticam os procedimentos abortivos? Por que pouco ou nada se fala deles?

E ainda temos o lado do feto: que tipo de vida ele terá caso venha a nascer? Que tipo de orientação essa criança receberá? Será que ela será amada, bem cuidada, protegida…? Será que terá acesso a escola, roupa pra vestir, comida na mesa? Ou será que viverá à deriva, largada à própria sorte, podendo até se tornar um adulto-problema na sociedade? Em que condições essa vida será mantida? Até que ponto o estado oferece educação, saúde e segurança para essa vida que está prestes a nascer sem o planejamento dos pais?

As questões não param por aí. Falar de aborto não é somente responder à questão pontual de “pode ou não pode?”. Para falar de aborto seriamente precisamos entender as questões sociais que estão por trás dessa problemática. Dentre essas inúmeras questões, eu destaco o machismo perverso de uma sociedade que age como se a responsabilidade de prevenir gravidez  fosse  somente da mulher; que trata uma gravidez indesejada como se fosse pior que uma DST; que admite homens irresponsáveis fazendo filhos desenfreadamente, mas não tolera mulheres que pensam / fazem aborto; que coloca a gravidez como uma punição pela atividade sexual livre da mulher; que a deixa isolada na hora de tomar a difícil decisão entre abortar ou cuidar de uma vida sozinha, assumindo todas as responsabilidades que seu companheiro não quis assumir; enfim, uma sociedade que omite a culpa dos homens e joga tudo em cima das mulheres, crucificando-as.

Não, nenhuma mulher faz um aborto alegremente. As que optam por esse caminho carregam traumas para o resto da vida e, na maioria dos casos, o fazem por não conseguir enxergar outra opção. Uma pergunta que sempre me vêm à mente é: se os homens não fugissem tanto da responsabilidade da paternidade, será que teríamos um número tão alto de mulheres abortando?  

O estado é laico

Além do machismo por trás dessa polêmica que temos que desmascarar, existe também o fundamentalismo religioso. Basta observar quem são os defensores mais barulhentos da criminalização do aborto no país: a bancada evangélica, as igrejas católica e prostestante, os líderes religiosos. Deus é o grande argumento dessas pessoas, é em nome dEle que se fala quando se quer obrigar as mulheres a criar um filho que muitas vezes o pai já rejeitou. Mas que Deus é esse que não vê a covardia dos homens? Que não observa as circunstâncias da mulher que pensa em abortar? Que quer obrigar uma criança a nascer, mesmo que ela não venha a receber nada daquilo que um ser humano merece para viver com dignidade (amor, cuidado, suprimentos básicos, segurança…)? Que deixa o homem ileso nessa história toda, ele que tem, no mínimo, 50% de responsabilidade numa gravidez indesejada? Definitivamente, eu desconheço esse deus – que pra mim tá mais para uma reprodução narcisista de nós mesmos.

É bom lembrar que o estado é laico e nenhum argumento religioso deve servir para embasar essa questão tão delicada. Religião é opção, não imposição, e o estado deve respeitar igualmente os que têm e os que não têm. Logo, aceitar as pressões de um grupo religioso que quer usar a sua fé para legislar sobre o país é, no mínimo, inconstitucional. Eu adoraria que todos conhecessem o Deus maravilhoso que eu conheço e servissem a Ele, mas não posso obrigar ninguém (nem Ele próprio nos obriga a seguí-Lo, como está dito lá em Ap 3:20). Em resumo: ninguém tem o direito de impor a sua ética cristã aos outros. Não tenho o direito de exigir de uma mulher que não teve a vida e as oportunidades que eu tive a pensar como eu. Se abortar é pecado, cada uma que se resolva com Deus, pois ninguém tem que responder pelos erros dos outros. Mas a saúde é um direito de todos e o estado deve fazer sua parte.

Defender a descriminalização não é incentivar

Esse é um ponto que precisa ficar muito claro aqui: defender a descriminalização do aborto não significa incentivar, querer fazer ou achar certo. Eu tenho as minhas convicções religiosas, que servem como norteadoras para a minha vida, mas respeito quem não as tem, respeito o direito da mulher de decidir sobre o seu corpo e defendo a igualdade em poder tomar uma decisão que os homens já tomam desde sempre. 

Para finalizar, não pretendo convencer ninguém a ser a favor da descriminalização do aborto, mas pretendo mostrar que a questão é muito mais ampla do que parece e que o problema não está onde dizem que está (nas mulheres perversas que matam criancinhas). Apontar somente para a ponta do iceberg é bastante confortável para muitos, mas não resolve a questão. Vamos discutir sobre esse assunto com mais seriedade, mais profundidade, mais empatia. E também com menos reducionismo, menos preconceito, menos ingenuidade. Sejamos coerentes e corajosos o suficiente para sair da superfície.  

 

4 Comentários

  1. Georgia disse:

    Ótima reflexão!!! Excelente texto!!! Vamos refletir seriamente sobre o assunto!!

  2. Helena disse:

    Gostei muito da sua reflexão sobre essa questão. Parabéns pelo texto.

  3. Elisabete disse:

    Parabéns!!!! vc consegue escrever com profundidade, simplicidade e clareza. Que o Senhor continue lhe abençoando.

  4. Raquel disse:

    Muito bom! Irei compartilhar com as mulheres da minha igreja pra discutirmos sobre o assunto.

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