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Algumas igrejas nos querem eternamente crianças.

Crianças são dependentes e sempre precisam de um adulto para guiá-las; não têm senso de responsabilidade, não respondem por seus atos nem tomam decisões sozinhas. São frágeis, ingênuas e vulneráveis. E é exatamente assim que algumas igrejas nos querem, pois desta forma é fácil nos controlar e nos usar para satisfazer à vaidade, à usura e à sede de poder dos falsos líderes.

A infantilização do crente começa a partir do momento em que as igrejas negligenciam o estudo bíblico e o discipulado. Não oferecer conhecimento é uma forma de subjugar e de hierarquizar o acesso a Deus. Como pode um cristão não conhecer o Deus a quem ele serve? Parece absurdo, mas isso é uma realidade em muitas igrejas, pois quanto menos as pessoas sabem sobre Ele, mais dependentes ficam daqueles que, teoricamente, detêm esse conhecimento: os pastores e as lideranças.

A partir do momento em que não se estuda a Bíblia nem se faz discipulado, as pessoas ficam sem repertório e sem embasamento para sua fé, limitadas a rituais, frases de efeito e superstições. Então elas tendem a buscar cada vez mais emoções arrebatadoras e experiências sobrenaturais, pois é só o que lhes é oferecido como vivência de fé (não que isso não seja importante; só não pode ser o foco principal e nem algo vazio, senão vira misticismo).

Quando se tem um cristão com pouco conhecimento bíblico, sem discipulado e muito ligado à parte mística-espiritualizada da fé, tem-se um mero repetidor, um cristão influenciável que, pela sua falta de preparo, não consegue problematizar nem fazer reflexões sozinho. Logo, ele se torna dependente e facilmente manipulável. Sua incapacidade de questionar o leva a uma obediência cega e a uma fé fragilizada, que o fará desviar do caminho ou cair ao menor sinal de crise. Mas esse parece ser o tipo de cristão que muitas igrejas gostam, pois eles não incomodam, se conformam com tudo, não exigem uma liderança preparada e não ameaçam o status quo.

No entanto, Paulo explica de forma bem clara na carta aos Efésios que Cristo estabeleceu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres para melhor orientar (e não manipular) o povo de Deus (Ef. 4:11-13). Seu propósito era fazer com que os líderes ensinassem o caminho, instruíssem a igreja “até que finalmente todos tenham a mesma fé quanto à nossa salvação e quanto ao conhecimento de nosso Salvador, […] e todos nos tornemos maduros no Senhor” (Ef. 4:13). O objetivo, portanto, era instituir uma liderança que ajudasse a nos tornarmos adultos na fé.

Crescimento e amadurecimento fazem parte da vida de qualquer pessoa e na vida espiritual não poderia ser diferente. Servir a Deus implica em buscar conhecê-Lo de perto, estudar Sua Palavra, conversar com Ele, estabelecer uma rotina de intimidade… E não dá pra fazer tudo isso e continuar no mesmo lugar. O amadurecimento espiritual é uma consequência dessa caminhada, que é pessoal – cada um com seus percalços e suas vitórias, com sua forma individual de se relacionar com Deus. O papel da igreja é intermediar esse processo e incentivar o crescimento de seus membros. E ela faz isso quando prega o verdadeiro Evangelho. Este simples, mas ousado e corajoso ato, é suficiente para nos libertar e nos colocar em condições de caminhar com nossas próprias pernas. Porém, a liberdade que o verdadeiro Evangelho oferece é transgressora, pois não tem compromisso algum com o moralismo nem com as convenções sociais, o que representa uma ameaça àqueles que querem usar a igreja como instrumento de controle e alienação para manter uma estrutura de privilégios.

Vejo muitas igrejas se recusando a discutir de forma mais aprofundada sobre determinadas questões porque não querem admitir que precisam rever sua postura diante delas e, principalmente, porque não querem perder o controle que exercem sobre a vida de muitos justamente por causa delas. Exemplos não faltam: sob a alegação de que “a mulher deve ser submissa”, elas usam a Bíblia para se omitir diante das complexas situações de violência contra a mulher praticadas sob suas vistas; sob o pretexto de que “Deus abomina a homossexualidade”, a Bíblia também é usada para legitimar a homofobia e manter as igrejas de olhos fechados para os homossexuais que estão ali, sentados nos seus bancos, e assim desobrigam-se a pensar numa forma digna e honesta de lidar com eles e ajudá-los na sua caminhada de fé; afirmando exaustivamente que “Deus é contra o divórcio”, elas colocam no mesmo balaio os casais que estão à beira da separação por motivos fúteis e aqueles que estão enfrentando sérios e graves problemas conjugais; é alegando que todos são irmãos que o racismo dentro das igrejas vai sendo varrido para debaixo do tapete, tranquilizando a mente dos crentes racistas e deixando uma sensação de desconforto naqueles que são preteridos ou desrespeitados em função da cor da sua pele. Em todas essas situações, a falta de profundidade e a negação do machismo, do racismo e da homofobia contribuem para que esses comportamentos continuem existindo e oprimindo pessoas, só que de uma forma “religiosa”, na qual o questionamento é dificultado pela presença do elemento espiritual – “é Deus quem ordena”, “é a lei de Deus”, e por aí vai. Esses foram apenas alguns exemplos, pois existem muitos outros temas que podem e devem ser revistos pelas igrejas com base no verdadeiro Evangelho, despido de preconceitos e de leituras de conveniência. Mas para isso é preciso maturidade espiritual e conhecimento do Evangelho, coisas que essas igrejas não querem incentivar porque precisam de crentes infantilizados para sobreviver.

É preciso coragem para mostrar a liberdade do Evangelho e deixar que as pessoas tenham suas próprias experiências com Deus, sem porta-vozes nem roteiristas. É preciso coragem para admitir que não somos oráculos de Deus e que não temos permissão para controlar nem ditar Sua vontade na vida dos outros. E isso as igrejas sérias sabem fazer. 

Para finalizar, quero deixar claro aqui que a comunhão é importante e que ter alguém mais experiente para ajudar na caminhada é indispensável (pastores, líderes, missionários etc.). Mas outras pessoas não poderão jamais viver a fé por você nem dizer como você deve vivê-la. Aprendi muito cedo que Deus é um Deus pessoal, mas só depois de anos pude entender e ver que sim, é verdade: Deus fala com cada um de nós usando a nossa linguagem, do nosso jeito, pois Ele sabe a melhor forma de se comunicar com cada um. Busque conhecê-Lo cada dia mais, busque intimidade com Ele e não permita que outras pessoas queiram impor regras à sua forma de viver a fé. Não aceite ser tratado como criança pra sempre, pois o que Jesus tem pra nós é uma vida de crescimento.

2 Comentários

  1. Fabíola Neves disse:

    É incrível o poder de nos conectarmos com tudo e todos que estão na mesma (ou similar) energia vibracional que nós. E foi assim que eu cheguei aqui.
    Bela, há anos não te vejo, mas foi exatamente em um momento mais questionador da minha vida que voltamos a nos conectar através das suas sábias palavras.
    Pouco conheço o Evangelho, mas podemos fazer um paralelo do assunto abordado com diversas situações do nosso cotidiano.
    Confesso que fiquei bastante surpresa em ler que “as igrejas negligenciam o estudo bíblico”. Recordo-me de já ter sido convidada diversas vezes para “encontro de estudos jovens”, mas em nenhum momento despertei o interesse em participar. E agora eu pergunto: o que haveria nestes encontros para estudos? Espaço aberto para discutir ideias, ou imposições de ideias que deveriam ser seguidas?
    Se pensar dentro da caixa é o padrão, portanto qualquer outro pensamento que não esteja contido nela sempre estará sujeito a julgamentos, repressão, descriminação, etc. Creio que a maioria de nós tememos ser julgados, por isto permanecer “crianças” é muito menos dolorido do que sair da nossa zona de conforto.
    Bela, vejo que estes seus textos estimulam o leitor a exatamente questionar os pastores, líderes, e vale também questionar a si mesmo. Parabéns!

  2. Jussara disse:

    Ótimo texto. Só não aprendi ainda como te seguir.

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