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Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas.” (Rm 13:1)

 

Como você lida com autoridades? Ou melhor, como te ensinaram a lidar com as autoridades?

Muitas igrejas utilizam este versículo da carta de Paulo aos Romanos para ensinar subserviência e conformismo aos seus membros. Como o Evangelho é libertação, sugiro que nos libertemos de mais essa amarra. Não vou entrar aqui em explicações teológicas sobre esse texto porque, reconheço, não tenho competência para tal. Mas quero falar sob o meu ponto de vista de comunicadora que se interessa por discursos.

Já fui repreendida algumas vezes por irmãos da fé porque critiquei políticos. Também já fui repreendida por criticar certos pastores midiáticos. E sempre as repreensões eram justificadas pela passagem de Romanos 13:1, pois afinal, eu tenho que me submeter às autoridades, que são postas por Deus. Sinceramente? Não acredito que foi Deus quem deu poder e autoridade a pessoas que se aproveitam da sua situação privilegiada para enganar, manipular, roubar e mentir, sejam elas políticos, pastores, líderes ou o que quer que sejam. Acredito que elas são colocadas onde estão por nós mesmos, mulheres e homens, pessoas comuns que se deixam iludir ou que também pretendem tirar alguma vantagem com isso. E Deus, que nos deu o livre arbítrio, apenas permite que façamos nossas escolhas, sem interferir. Mas as consequências sempre vêm.

Em relação a nós, mulheres, a cobrança da igreja para que sejamos subservientes às autoridades ainda é maior, pois existe a necessidade de nos controlar. Então designam pais, maridos, líderes de grupo, pastores, bispos e todos os homens possíveis para exercerem liderança sobre nós, liderança essa que vai muito além do espiritual e se confunde muitas vezes com ordenanças sobre como devemos conduzir nossas vidas. É como se sempre precisássemos de um homem para nos orientar e não pudéssemos prescindir disso.

O discurso em torno de Rm 13:1 costuma ser um discurso de dominação: obedeça, não questione, não confronte. Muitas vezes ele vai mais fundo, usando a passagem de Salmos 105:15 em tom de ameaça: “Não toqueis nos meus ungidos, não maltrateis os meus profetas”. Ai de quem tocar no ungido do Senhor! Mas quem são, de fato, os ungidos do Senhor? Será que toda autoridade merece esse título?

Quando ensinou sobre como devemos nos comportar em relação às autoridades, Paulo nos deu um norte, um padrão de conduta que devemos adotar diante de pessoas que nos lideram em determinadas circunstâncias. Porém, esse padrão de conduta não é uma regra engessada, que nos priva de discernimento e consciência. Sim, devemos respeito e obediência às nossas autoridades. Mas isso não significa que temos que fechar os olhos para as arbitrariedades que elas possam vir a cometer nem ficar calados diante das injustiças que possam praticar.

O próprio Jesus nos deixou um exemplo de desobediência civil quando não parou de proclamar o Evangelho, mesmo diante das ameaças contra a sua vida. Ele sabia que falar e demonstrar o poder de Deus naquela circunstância política significava ferir o orgulho e a prepotência das autoridades de governo, que exigiam unicamente para si a adoração da população. Mas não só isso: Ele sabia também que estava mexendo com a economia dos locais por onde passava, visto que muito se lucrava com as religiões pagãs através da venda de animais para sacrifício, dos videntes e adivinhos, dos aparatos para os rituais… . Quando saía por aí pregando e fazendo milagres, Jesus mostrava quem era a verdadeira autoridade, desestimulava o comércio pagão, desmascarava a hipocrisia dos fariseus e sacerdotes, empoderava os marginalizados – enfim, Jesus abria os olhos das pessoas, dava-lhes consciência para enxergar além das leis deste mundo através da Verdade. Por isso Ele foi perseguido pelas autoridades até a morte, mas nunca obedeceu a ordem de se calar.

A tentativa de fazer com que a igreja se cale diante dos absurdos cometidos por determinadas autoridades (cristãs ou não) é algo bem real e parte de quem tem muito interesse nisso. Usam esse trecho da carta de Paulo aos Romanos para nos anestesiar, nos deixar de braços cruzados diante de coisas que Jesus jamais aceitaria se aqui estivesse nos dias de hoje. E é claro que tem gente se beneficiando com isso. Portanto, acredito que devemos, sim, respeitar as autoridades, mas sempre com cautela, sempre observando sua conduta, avaliando se suas atitudes são honestas, limpas, benéficas para os liderados. E não devemos permitir abusos, pois Jesus não permitiu. Ele denunciou os vendedores na frente dos templos, denunciou a hipocrisia de muitos religiosos. Ele orou, mas também partiu para a ação – alertou as pessoas, ensinou como se reconhecer um verdadeiro líder. É nosso dever, enquanto seguidores dEle, fazer o mesmo.

Portanto, não nos deixemos manipular. Não sejamos omissos nem coniventes com os erros e as injustiças praticadas por pessoas revestidas de autoridade. Foi o próprio Paulo quem nos orientou: “e não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm. 12:2). Então, não nos conformemos.

 

 

 

 

 

 

 

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