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Evas modernas no Éden machista

A história da entrada do pecado no mundo é bastante conhecida por cristãos e não cristãos: a serpente convenceu Eva a comer do fruto proibido; Eva, por sua vez, convenceu Adão e ambos decaíram no Jardim do Éden. Essa passagem de Gênesis 3 é bastante emblemática, pois ao mesmo tempo que nos explica como o pecado passou a dominar o ser humano, serve como uma alegoria para retratar a nossa natureza e a origem das maldições que vivemos até os dias de hoje: trabalho, dores de parto e morte. Há quem defenda que Adão e Eva realmente existiram, mas há também quem diga que esta não é uma história real, é apenas uma metáfora. Não entrarei nesse mérito aqui, mas quero falar de um estigma criado a partir dela e que nos acompanha até os dias de hoje: o estigma de ser mulher.

A serpente escolheu a mulher para persuadir. Eva se deixou enganar e convenceu também o homem a pecar. Ao ser indagado por Deus, Adão disse: “Foi a mulher que me deste por companheira” (Gn 3:12), o que, em outras palavras, quer dizer: “foi culpa dela”. Desde então carregamos o peso de sermos responsáveis pelo pecado no mundo e de sermos também responsáveis pelos erros do homem, ainda que isso não se manifeste de forma explícita. Desta forma, o discurso de que precisamos ser cuidadas, acompanhadas e orientadas por eles para não fazermos besteira ganhou legitimidade. Também as diversas circunstâncias em que somos culpabilizadas pelos erros masculinos têm amparo na metáfora da criação. Filhos indesejados? Culpa da mulher. Estupro ou assédio? Culpa da mulher. Maridos violentos? Culpa da mulher. Pais que abandonam filhos? Culpa da mulher. Até mesmo o machismo tem sido atribuído a nós, como se fôssemos as únicas responsáveis pela criação de filhos machistas. Nós é quem somos, portanto, as responsáveis por fazer o homem errar, seja com a nossa atitude, seja com a nossa falta de atitude.

Um outro aspecto interessante da história de Adão e Eva está no fato de o fruto proibido ganhar (erroneamente) uma conotação sexual. E, como não poderia deixar de ser, nós ganhamos mais esse fardo: o de sermos portadoras da tentação do sexo, verdadeiras personificações dos pecados sexuais. No imaginário popular, Eva deu a maçã para Adão e com isso o levou a pecar. A maçã aqui aparece como uma metáfora para o sexo. O homem peca porque a mulher se apresenta como uma tentação da qual ele não consegue se desvencilhar. E assim se justificam traições, abusos, estupros, promiscuidade e toda atitude repreensível no que diz respeito às formas de exercer a sexualidade masculina.

A verdade é que a história de Adão e Eva, assim como muitas outras passagens bíblicas, foi deturpada para favorecer uma estrutura de dominação, para estabelecer lugares sociais. Novamente os homens ganham vantagens com a interpretação dominante, enquanto que nós ganhamos culpa e vergonha. É mais uma forma de nos manter conformadas com nossa posição desfavorável na sociedade. Somos levadas a acreditar que somos Evas modernas, sempre errando e induzindo os Adãos a errarem também.

No entanto, basta lermos a história de Gênesis 3 com atenção para percebermos que não é bem assim. Deus, com toda sua justiça, não castigaria um inocente. As pessoas pecam porque em algum momento elas aceitam pecar. Sempre há a possibilidade de dizer não para o pecado e se você não diz, está sendo agente nesta situação, e não vítima. Culpar o outro faz parte da nossa natureza humana e falha – Adão culpou Eva, que por sua vez culpou a serpente. Mas isso não significa que não temos responsabilidade pelos nossos atos. Jogar a culpa no outro é apenas uma tentativa de tirar o holofote de nós mesmos, mas não nos isenta da nossa culpa.

A história da criação nos mostra que Adão e Eva pecaram. Eva convenceu Adão, sim, mas poderia ter sido o contrário. E isso não traria nenhum prejuízo para o propósito dessa história na Bíblia, que é o de mostrar que nós somos a origem do pecado, nos revelar a nossa natureza fraca e covarde e nos mostrar o porquê de não vivermos ainda a plenitude divina.

Numa outra hipótese, Adão poderia ter se recusado a comer do fruto e deixar Eva pecar sozinha. Mas não foi o que ele fez. Assim, Gênesis 3 nos mostra que ninguém se salva, ninguém é melhor do que o outro, ninguém peca menos que o outro. E Paulo confirmou isso ao ensinar que todos pecaram e estão afastados da Glória de Deus (Rm 3:23), que somos salvos pela graça e que isto não vem de nós, portanto, não temos mérito nenhum na nossa própria salvação (Ef. 2:8-9).

E por fim, Deus castigou os dois, Adão e Eva, homem e mulher. Todos nós temos que pagar pelas consequências dos nossos pecados. No entanto, nos dias de hoje, parece que vivemos numa espécie de Jardim do Éden adaptado, onde os Adãos são inocentados e as Evas pagam um preço duplo. Até parece que Deus mudou de opinião, né? Mas podemos afirmar com certeza absoluta que não, Deus não mudou de opinião, pois Ele é imutável (Ml 3:6; Tg 1:17). Portanto, estamos absolvidas dos pecados que não são nossos, pois a salvação é individual e cada um responde por si. Deixemos, então, de assumir as culpas alheias e de ocupar o lugar de Eva no Jardim do Éden do machismo.

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