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Evangelho que liberta das riquezas

“… é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Mateus 19:24). Este é um dos ensinamentos mais claros que Jesus deixou. Apesar das diferentes explicações existentes para o contexto dessa frase, ela tem apenas um sentido, uma interpretação, e pode ser entendida até mesmo quando não se sabe o contexto. O que Jesus quis dizer nesta passagem foi exatamente o que Ele disse: que é muito difícil um rico entrar no reino de Deus.

O jovem rico que O procurou para saber o que fazer para ser salvo saiu cabisbaixo quando Jesus o mandou vender seus bens e dar o dinheiro aos pobres (Mc. 10:17-28). Por quê? Porque ele era apegado às suas riquezas. E este é o motivo pelo qual dificilmente um rico será salvo. Por mais que o rico se ache desapegado e acredite que sim, ele irá para o céu, há uma chance mínima disso acontecer porque Jesus foi muito claro: “um rico dificilmente entrará no reino dos céus” (Mt 19:23). E ainda usou a metáfora do camelo passando no fundo de uma agulha – qual é a chance disso acontecer?

Aí você pode achar que essa passagem está direcionada às pessoas que realmente são ricas, com milhões na conta, grandes investimentos, casas luxuosas… “não é o meu caso”, pensa. Mas o apego às riquezas não é algo tão distante e até mesmo quem não se considera rico pode ter. O desejo desenfreado de constituir e acumular bens, o excesso de trabalho visando ter uma boa vida, o dinheiro acumulado na poupança que não serve para ajudar quem precisa, a necessidade de parecer fino, sofisticado, frequentar lugares de prestígio, andar com pessoas influentes, gostar de exibir objetos de valor… tudo isso se constitui num tipo de apego à riqueza e não precisa ser rico para desenvolver. Então esse ensinamento de Jesus é muito mais abrangente do que parece.

 

Jesus não foi rico

 

Analisando a vida de Jesus, dá para perceber que desde sempre Ele passou longe do que consideramos uma vida de luxo, glamour e conforto: Jesus era filho de carpinteiro (Mt 13:55) e, no dia em que nasceu, seus pais não tinham nem onde passar a noite, por isso Ele dormiu numa manjedoura (Lc 2:1-7). Durante seu ministério, Jesus andava a pé de cidade em cidade e não tinha moradia fixa (Mt. 8:20). Apesar de ser filho de Deus, Ele abriu mão de todo e qualquer privilégio que poderia ter quando Satanás lhe tentou oferecendo glória, reconhecimento e todos os reinos do mundo (Mt. 4:5-11). Seu maior luxo foi chegar em Jerusalém de jumento (Lc. 19:29-38), um meio de transporte popular na época. Morreu na cruz, considerado o pior castigo e a pior vergonha daquela sociedade (Mt. 27: 33-38). Jesus não tinha sequer um túmulo para ser enterrado – foi José de Arimatéia quem emprestou o seu (Mt. 27:57-60). Será que uma vida dessas não nos diz nada? Será que tudo isso foi mero acaso?

Jesus não precisou de dinheiro acumulado, meios de transporte caros, roupas de grife ou prestígio social. Ele teve uma vida simples e nos deixou um exemplo de humildade e desapego, provando que é possível viver somente com o necessário. Também nos ensinou que Deus sabe do que precisamos e prometeu que, se buscarmos em primeiro lugar o Seu reino e justiça, todas as outras coisas nos serão acrescentadas (Mt 6:25-34). Jesus nunca foi rico, mas nem por isso deixou de ser Rei – um Rei manso e humilde de coração (Mt 11:29), com quem temos muito o que aprender.  Isso é, literalmente, viver pela fé. Do que mais precisamos?

 

O perigo do discurso de prosperidade

 

A teologia da prosperidade nunca foi uma realidade na vida de Jesus, logo, não pode ser algo que devemos perseguir, como pregam alguns falsos líderes. Se você deseja prosperidade material na sua vida, o último lugar onde deve procurar por ela é na igreja. Enriquecimento pessoal não é e nem deve ser o propósito da igreja de Cristo (até porque, na sociedade capitalista em que vivemos, não há riqueza sem roubo ou exploração de pessoas, coisas que passam bem longe da ética cristã). Se usarmos a lógica dos teólogos da prosperidade, Jesus não teve uma “vida de vencedor” nem “reivindicou” suas bênçãos junto ao Pai, portanto, seria considerado por eles um fracassado. Aí fica a pergunta: será que é realmente Deus o alvo da adoração nessas igrejas?

As riquezas e os bens materiais nos dão a falsa sensação de que nada nos falta, de que estamos seguros e protegidos. Com o tempo, esta sensação vai nos tornando vaidosos, presunçosos e arrogantes, acreditando que nos bastamos e que não precisamos de mais ninguém – nem de Deus. E não se engane: este comportamento se apresenta em vários níveis – desde o mais explícito, no qual todos ao redor percebem, até o mais íntimo, que não se externaliza a ponto de ser notado pelos outros, mas que está ali, escondido em algum lugar do pensamento e do coração. A confiança nas riquezas nos trai e quando nos damos conta, ela já está instalada e é difícil se livrar dela.

No entanto, quando se conhece o Evangelho e quando se assume um real compromisso com Cristo, ocorre a libertação das riquezas e da falsa onipotência que elas nos trazem. Quem é verdadeiramente salvo por Jesus não dá valor algum aos bens materiais porque sabe que eles nada significam. O único que pode nos dar segurança, proteção e vida eterna é Deus e nada mais. Por isso não dá pra entender como algumas igrejas se apresentam de forma tão luxuosa, esbanjando riqueza pra quem quiser ver. Da mesma forma é difícil compreender como alguns “cristãos”, que enchem a boca para dizer que são seguidores de Cristo, vivem uma vida de ostentação e luxo, ainda que muitas vezes nem sejam ricos de fato – já que a ostentação acontece não somente quando se tem muita riqueza, mas também quando se tem muitas coisas desnecessárias. A idolatria pelo “modo rico de viver” é uma coisa assustadora, mesmo entre aqueles que nascem e crescem dentro de um lar evangélico. Fico me perguntando se essas pessoas realmente conhecem o Evangelho ou se entendem a mensagem que ele traz.

O Evangelho tem muito mais a nos oferecer do que bens materiais. A libertação que ele traz necessariamente passa pela libertação das riquezas e nós temos que aprender, literalmente, a abrir mão dela em prol de uma sociedade mais justa. Não é passar necessidade, mas viver com aquilo que é necessário, sem exageros nem acúmulos. Esse é o nosso grande desafio.

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