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É esse o país que queremos?

Depois de quinhentos e dezenove anos, ainda somos um país colonial. 

Um país que escraviza os pobres, sujeitando-os a extensas jornadas de trabalho e pesados impostos sem que haja ao menos uma contrapartida com serviços essenciais, como saúde e educação. Um país que investe na política de extermínio dos negros, seja através da truculência da polícia, seja pela falta de oportunidades. Um país que trata suas mulheres como objetos de prazer dos homens e dá a eles o poder de decidir sobre os seus corpos, inclusive se elas viverão ou morrerão. Um país que se preocupa muito mais com a orientação sexual de suas crianças do que com a qualidade de vida que elas terão dentro de uma família desestruturada e desamparada. Um país que desmata suas florestas e promove um genocídio aos índios com o único objetivo de lucrar a curto prazo. Qual é a diferença entre os brasileiros de hoje e os colonizadores de quinhentos anos atrás?

Enquanto milhares de pessoas morrem todos os dias por causa da miséria, da falta de segurança e do preconceito, nossos governantes se empenham para censurar a arte, que tanto incomoda os valores cristãos dos hipócritas. Enquanto o desemprego aumenta assustadoramente, existe uma preocupação perversa em legalizar a super-exploração do trabalhador, para que ele não consiga fazer mais nada na vida a não ser trabalhar (e não tenha tempo, claro, de parar para analisar criticamente o que vem acontecendo em nosso país). Enquanto os direitos humanos são pisoteados todos os dias, a palavra de Deus é usada pelos escarnecedores para justificar o show de horrores a que estamos assistindo e no qual também somos atores-vítimas. O Evangelho que traz uma mensagem de amor é usado para promover atos de ódio. Será que é tão difícil perceber essa inversão de valores? Ou será que na verdade nós nunca entendemos o Evangelho?

A pátria amada tem sido nada gentil com seus filhos negros, pobres, índios, mulheres e LGBTQ+. Essa terra mais garrida tem cada vez menos flores e bosques, em função do desmatamento desvairado e insano. O sol da liberdade está cada dia mais distante para os brasileiros, pois o excesso de trabalho nos rouba a liberdade de usar o tempo, a falta de segurança nos rouba a liberdade de ir e vir, a promoção da desinformação nos rouba a liberdade de saber e o escamoteamento da educação nos rouba a liberdade de aprender e pensar. Sem falar no ensaio para censura que acontece todos os dias e tem roubado cada vez mais a nossa liberdade de expressão e de amor. O povo heróico parece mais apático do que heróico e enquanto somos afanados em nossas riquezas ano após ano, o que mais temos feito é fugir da luta.

Neste 7 de setembro, em meio a desfiles e exaltações cegas à pátria, vale parar pra pensar: é esse mesmo o Brasil que queremos? Estamos realmente no caminho certo? Patriotismo não é fechar os olhos para os problemas do nosso país e repetir emburrecidamente declarações de amor vazias. Ser patriota é ter coragem pra assumir o que temos de pior e arregaçar as mangas para mudar nossa realidade. Não é “ame-o ou deixe-o”, mas “ame-o e transforme-o num lugar digno”. Discursos vazios, corrupção travestida de moralismo, cristianismo hipócrita e incitação ao ódio não vão mudar nossa realidade de país colonial. Essa estratégia nunca funcionou e agora não será diferente. Pergunte às minorias.



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