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Se tem uma coisa que eu ouço bastante nas igrejas é a ideia de que Deus prepara alguém para ser nosso cônjuge. Muitos acreditam que Ele predestina as pessoas umas para as outras e vivem buscando aquele(a) que está predestinado(a) pra si (e vice-versa). 

Até a minha adolescência eu acreditei nessa ideia e achava lindos os testemunhos que ouvia de gente dizendo que Deus deu vários sinais para mostrar que determinada pessoa era a certa pra ela(e) casar. Até que, com o passar dos anos, fui vendo várias desses casais se divorciando. O que aconteceu? Deus errou? Deus se arrependeu? A pessoa entendeu errado os sinais? Onde estava a falha de comunicação?

Não quero aqui desconsiderar a experiência pessoal de ninguém – sei perfeitamente que Deus não está engessado numa forma padrão de se comunicar com seus filhos. Paulo diz em 1 Co 1:27 que Ele escolheu as coisas loucas deste mundo para envergonhar os sábios, ou seja: Deus não segue cartilha, Ele age ao Seu modo, da forma que bem entender na vida de cada um. No entanto, temos que ter muito cuidado para não confundir a voz de Deus com a nossa própria vontade.

Essa ideia romântica de que Deus predestina as pessoas umas para as outras hoje me parece nada razoável. Se isso fosse verdade, por que acontecem tantos divórcios entre crentes? Por que tem tanto casamento de fachada na igreja? Será que Deus é tão narcisista a ponto de manter um casal infeliz sob o mesmo teto só para mostrar que Ele é quem determina com quem cada um deve ficar? E o que dizer dos que não conseguem casar? Deus esqueceu de predestinar alguém pra essas pessoas? São muitas perguntas sem resposta que apontam para a possibilidade de Deus estar sendo manipulado quando se trata desse assunto…

 

Predestinação, livre arbítrio e sabedoria

A discussão sobre predestinação e livre arbítrio é bastante complexa. Teólogos se debruçam sobre esses temas há anos, mas ainda não há consenso. Para ter uma noção da complexidade, sugiro uma lida nesse artigo e nesse, que mostram de uma maneira muito simples alguns aspectos que envolvem essas questões. Não sou teóloga e admito aqui a minha incapacidade de defender qualquer lado com embasamento, portanto, não vou me aprofundar, mas quero tão somente provocar reflexões. 

Inegavelmente, nós temos capacidade de fazer escolhas, boas ou ruins. O que muitas vezes não temos é a coragem de arcar sozinhos com as consequências. Talvez por isso muitas pessoas tenham a necessidade de mostrar que suas escolhas estão sendo feitas juntamente com Deus, como uma forma de legitimá-las e provar que não estão escolhendo sozinhas. O que eu tenho percebido é que, quanto mais séria é a decisão a ser tomada (e casamento é uma delas), mais medo as pessoas têm, ainda que diga respeito às suas próprias vidas. Por isso a necessidade de ter o aval de alguém tão importante como Deus. Também é uma forma fácil de evitar questionamentos, afinal, quem vai questionar a vontade dEle?

Na minha opinião, Deus não elege uma pessoa para ser nosso(a) companheiro(a) e acreditar nisso pode ser perigoso e frustrante. Perigoso porque deixa subentendido que, uma vez encontrada a pessoa eleita, nada irá nos separar dela, o que leva à acomodação no relacionamento e traz uma série de desgastes que levam, sim, à separação. E frustrante porque quando a relação não dá certo fica a vergonha perante os outros e as angústias pessoais (“o que foi que deu errado? Deus mentiu pra mim?”).

Se Deus não elege nosso cônjuge, quem elege? Nós mesmas(os). Temos nossas preferências e capacidade de escolha para isso, o que muitas vezes não temos é maturidade e coragem de bancar essa decisão sozinhas(os). A pressão que as igrejas e a sociedade fazem para que todo mundo se case e as cobranças de um casamento feliz contribuem muito para esse medo de escolher por si só, que é  também um medo da frustração caso não dê certo. Além disso, não podemos deixar de considerar também a nossa vaidade, que nos leva a uma necessidade de mostrar aos outros o quanto somos próximas(os) de Deus, a ponto de ouvir Sua voz falando conosco.

É preciso muito cuidado com essa mania de espiritualizar tudo. Nem tudo é espiritual e a escolha de um parceiro(a) envolve também questões que são pessoais e “carnais” (sentimentos, desejos, planos de vida, interesses…). Basta observar: quantas pessoas você conhece que casaram com alguém que foge totalmente do perfil que lhes agrada, só porque Deus mandou? Eu não conheço ninguém! Logo, muitas vezes Deus é usado para justificar escolhas meramente pessoais ou para referendar a nossa própria vontade. Isso não é relacionamento com Deus, é uma forma de usá-Lo como fantoche para o nosso próprio engrandecimento.

Não há nada de mal em fazermos escolhas, pois Deus nos deu inteligência para isso. O que precisamos é nos voltar mais pra Ele e buscar conhecê-Lo melhor, a fim de glorificá-Lo em tudo – inclusive nas nossas escolhas. Salomão é um grande exemplo, pois pediu sabedoria e Ele deu (2 Cr 1). O próprio Jesus disse: “peçam e receberão, procurem e acharão” (Lc 11:9-13). Por isso, acho que temos, sim, que usar a inteligência e a autonomia que temos, mas sempre pedindo a Deus discernimento e sabedoria para tomarmos decisões conscientes. Isso não significa que nunca iremos errar nas escolhas, mas quando andamos com o Senhor temos tranquilidade porque sabemos que Ele nos sustenta. 

É angustiante pensar que, num mundo tão grande, com bilhões de pessoas, só poderemos ser felizes ao lado de uma. Acredito num Deus que zela por nós, quer o nosso melhor e tem planos pra nossa vida, mas acredito também num Deus que não é autoritário, que respeita nossas preferências e nos permite escolher. Cabe a nós pedí-Lo que nos ajude a fazer uma boa escolha e a cuidar bem do relacionamento que escolhemos. 

Para finalizar, acredito que devemos ter cuidado para não fazer de Deus um fantoche que referenda todas as nossas vontades. Estamos aqui para servir a Ele, e não o contrário. Precisamos também aprender a ter a responsabilidade da escolha, pois Deus não nos quer eternamente crianças. Assim, acredito que não devemos pedir que Ele nos revele a pessoa que tem preparado para nós, mas sim que nos ajude a escolher alguém com quem possamos compartilhar a vida de forma a glorificá-Lo. Que aprendamos a desenvolver um relacionamento maduro com Deus, para que isso se reflita em nossas escolhas e na forma como encaramos até mesmo os nossos erros.

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