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Dorcas: um exemplo de sororidade

Foto: Free Bible Images

“Pedro foi com eles e, quando chegou, foi levado para o quarto do andar superior. Todas as viúvas o rodearam, chorando e mostrando-lhe os vestidos e outras roupas que Dorcas tinha feito quando ainda estava com elas.”

(Atos 9:39)

 

Existem muitas histórias na Bíblia em que as mulheres foram as protagonistas. Nas outras, mesmo em papeis “secundários”, a presença feminina sempre foi marcante e de suma importância. Entretanto, qualquer leitor das Escrituras com o mínimo de sensibilidade percebe de imediato que o contexto em que se passam as histórias e narrativas bíblicas é machista, patriarcal e misógino. Talvez, para alguns, admitir esse fato seja um tanto desconfortável. Mas é importante esclarecer esses termos. O dicionário Aurélio, um dos mais conceituados e tradicionais ao acesso popular, de onde busco a definição desses conceitos de modo mais imediato aqui, define machismo como “atitude ou comportamento de quem crê que o homem é socialmente superior à mulher”. Já patriarcal (patriarcado) é um “regime social em que o pai é a autoridade máxima”. Por fim, o dicionário Aurélio apresenta misoginia como “aversão às mulheres”.

É evidente que todos esses conceitos são modernos e não faziam parte da compreensão social de mundo nos tempos bíblicos. Contudo, mesmo não tendo em si esse tipo de análise, os comportamentos podem ser vistos em várias cenas e episódios das Escrituras, como registro de um tempo e um lugar onde tais comportamentos eram naturalizados. A Bíblia, além de ser Palavra de Deus e texto sagrado da nossa fé, é também a história de um povo que, em meio a (muitas) falhas, resolveu andar com Deus. Rever leituras e interpretações das Escrituras se faz urgente, sobretudo, para que esse pecado social não se perpetue, fazendo vítimas e sustentando, em nome de Deus, um sistema de opressão e diminuição das mulheres.

Uma das formas de reler a Bíblia com o desejo de fazer cair por terra o machismo é dando destaque às suas personagens femininas que, na maioria das vezes, passam despercebidas entre os “grandes heróis da fé”. Mulheres que resistiram como juíza (Jz. 4), profetisa (Lc. 2.36), pastora (Gn. 29.9), rainhas (Ester e Sulamita) e discípulas do Jesus de Nazaré (Lc. 8:1-3) em meio ao ambiente hostil do preconceito.

Hoje trago a figura de Dorcas (Tabita), identificada como discípula. Sim, Jesus permitia discípulas e, provavelmente, era o único mestre em Israel que se alegrava em tê-las por perto. Jesus quebrou inúmeros tabus de seu tempo com relação às mulheres: deu voz (Jo. 4), defendeu (Jo. 8), recebeu-as em seu ministério, foi sustentado por elas (Lc. 8.1-3), entre outros. Mas foi Dorcas quem criou uma forma de resistência apoiando outras mulheres. Para práticas como essa, foi criado o neologismo sororidade, conceito que está bem presente em movimentos feministas e tem como objetivo firmar laços fraternos (daí vem o vocábulo latino “sor”, que significa irmã), de proteção, apoio e cuidado. Mulheres que cuidam de mulheres. 

Como bem sabemos, as viúvas nos tempos bíblicos eram privadas de inúmeros direitos e completamente marginalizadas pelo simples fato de não terem uma figura masculina na qual se apoiar. O texto bíblico não apresenta muitos detalhes, mas identifica Dorcas como uma discípula que “se dedicava a praticar boas obras e dar esmolas” (v. 36) e, mais adiante, as viúvas apresentaram as roupas que ela costurava para lhes doar. Dorcas dá um precioso testemunho para as mulheres que seguem a Jesus. Como comunidade de Cristo, precisamos ser um espaço de segurança para as mulheres.

Os anos passaram mas, ainda hoje, tristemente, centenas de mulheres todos os dias sofrem inúmeras formas de violências, privação de direitos e preconceitos. Infelizmente, muitas vezes com o apoio, conivência ou silêncio das Igrejas e pastores. Precisamos resistir a isso e dar espaço, voz e vez às discípulas de Jesus de Nazaré para que, assim como Dorcas, nos ensinem o caminho do cuidado, do zelo e da resistência.

 

 

 

Lázaro Sodré é teólogo e pastor da Igreja Batista Alvorada em Aracaju-SE.

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