Com quantas armas se faz um cristianismo?
19 de fevereiro de 2021

Dia da Mulher: um pouco de reflexão e autocrítica

O Dia da Mulher, pra mim, tem sido nos últimos anos uma data pra refletir sobre a nossa caminhada de luta, sobre as nossas conquistas e sobre as coisas que ainda precisamos conquistar. É também um dia de fazer autocrítica: estamos no caminho certo? O que precisamos rever e recalcular? No último ano eu tenho pensado muito sobre duas coisas que têm me incomodado no movimento feminista: a insistência na divisão e a militância autocentrada.

 

Dividir para segregar

 

Tenho visto muitos discursos raivosos de determinados segmentos, que insistem em colocar barreiras entre mulheres, separando-as por cor, gênero, classe ou qualquer outro critério. Antes que me entendam mal, sim, eu sei que não somos todas iguais e sei que há razões para tais discursos. Sei também que, enquanto mulher branca de classe média, eu estou no grupo das privilegiadas do movimento feminista, aquele que é menos massacrado pelo sistema. Acredito que a nossa luta deve abarcar os interesses de todas, especialmente das que são mais vulneráveis (mulheres negras, pobres, trans, indígenas…) e sei que as mulheres brancas precisam, sim, recuar em determinados momentos. Mas entendo que se estamos num movimento de combate às opressões, a união é que nos fortalece – respeitando, claro, as peculiaridades de cada grupo e ajudando a fortalecer suas bandeiras. Discursos de segregação não ajudam em nada.

Dizer que determinado grupo de mulheres é inimigo dos demais e que não podem lutar juntos, na minha opinião, é eleger o inimigo errado. Parto do pressuposto de que toda mulher que está com a gente na luta está aberta ao diálogo, disposta a aprender com as demais para se fortalecer em conjunto. Não estou falando aqui de oportunistas, estou falando de mulheres que abraçam a causa feminista (ou mulherista, já que pra mim o objetivo é o mesmo, apesar de cada movimento ter sua história e seus métodos).

Tenho consciência dos erros cometidos pela ala mais “abastada” do movimento feminista, mas acredito que o feminismo de hoje não é o mesmo de anos atrás. Hoje sabemos com muito mais clareza que existem mulheres com outras necessidades para além do mundo feminino branco burguês. E sabemos disso graças à ação e ousadia das que ficavam marginalizadas na luta. É essa diversidade de vozes, de forças e de bandeiras que dá a beleza e a potência do nosso movimento. Não acredito na eficiência da separação – mulheres negras pra um lado, mulheres trans pra outro…. Posso até estar sendo ingênua e utópica, mas acho que se investirmos no diálogo e na empatia, só temos a ganhar com a união das nossas forças. Eu me recuso a ver outra mulher como minha inimiga e acredito que, enquanto pensarmos assim, apenas favoreceremos os nossos opressores. Precisamos aprender a conviver com as nossas diferenças, recuando quando necessário, abrindo mão de privilégios (quem os tem) ou usando-os a nosso favor. Eu, enquanto mulher branca, estou disposta a isso e convido outras mulheres brancas a fazerem o mesmo.

Não fico confortável quando sou rechaçada por não pertencer a outras minorias, já que estou me colocando na trincheira junto com elas. Mas preciso dizer que fico menos confortável ainda quando vejo mulheres brancas usando o discurso feminista apenas para fortalecer seu lugar de privilégio ou para lhes favorecer quando convém. Se por um lado eu rejeito a segregação dentro do movimento feminista, por outro eu reconheço que as mulheres brancas precisam melhorar muito e entender que lutar contra o machismo envolve também bastante reflexão, autocrítica e mudança de comportamento. Temos muito que ceder, estudar e dialogar!

 

Feminismo ególatra

 

Aproveitando a deixa das falhas das mulheres brancas, quero trazer aqui uma crítica a um comportamento que é bem frequente entre elas (mas que existe também em outros grupos, claro): o ativismo narcisista.

Temos uma longa história de lutas, com erros e acertos, mas com muitos avanços e conquistas. Tenho percebido que as novas gerações têm desfrutado dessas conquistas, mas não têm olhado para trás para conhecer a história e aprender com os nossos erros. Daí surge uma espécie de “feminismo light”, onde elas se apoderam do discurso não para dar continuidade à luta, mas para legitimar seu egocentrismo, justificar suas atitudes narcisistas e até mesmo desrespeitar outras gerações e segmentos.

Basta dar uma passeada pelas redes sociais que a gente encontra fácil esse tipo de ativismo: palavras de ordem usadas como legendas de fotos pessoais, discursos de empoderamento para justificar uma exposição muitas vezes desnecessária, para agredir alguém ou para ganhar dinheiro, conteúdos rasos e voltados para o eu… mas na vida real, as coisas seguem normalmente, sem estudo, sem nenhum engajamento, sem nenhuma reflexão sobre seus atos, sem mudança de comportamento. Um feminismo útil só pra si. Sabe aquela história do “feminista na rua, mas em casa não ajuda a mãe” ou “feminista nas redes, mas explora a trabalhadora doméstica”? É bem por aí.

Fico me perguntando onde estamos errando na formação dessas novas gerações. Sim, porque está havendo uma distorção no meio do caminho e nós também somos responsáveis por isso. Temos uma geração de meninas e mulheres mimadas que esvaziam o significado de ser feminista para amaciar seu próprio ego e capitalizar com isso. Como o feminismo tem chegado para as adolescentes de hoje e até mesmo para as mulheres na faixa dos 20 e 30 anos?

Temos um desafio muito grande pela frente, que é o de mostrar que podemos, sim, desfrutar do que já conquistamos, mas com os pés bem fincados na realidade: estamos muito longe de um mundo ideal para as mulheres. Enquanto umas avançam de um lado, outras ainda padecem com problemas básicos e não podemos fechar os olhos pra isso. É preciso mostrar que o feminismo não é um movimento individual e exige convivência com outras mulheres, diálogo, empatia, renúncias… não é sobre mim ou sobre você. É sobre todas. Para nós que somos mulheres brancas, é preciso ouvir mais do falar e aprender que enquanto a gente usa um lema feminista para legendar nossa foto de biquini no instagram, existem mulheres morrendo por feminicídio ou sendo abusadas sexualmente por seus padrastos. Como podemos ajudar a mudar isso? Porque o problema também é nosso.

Concluo dizendo que ser uma mulher feminista exige também muito estudo. O movimento não começou ontem e temos excelentes referenciais, mulheres que abriram caminho pra que a gente chegasse onde chegou hoje. Precisamos beber dessa fonte! Feminismo não é brincadeira, não é uma forma descolada de ser. Se ser feminista não te provoca nenhum tipo de incômodo com relação à sua realidade e à de outras mulheres, tá na hora de rever.

Que possamos seguir juntas, sempre em frente, mas atentas umas às outras e sem cair nas armadilhas do capitalismo ou do narcisismo tão em voga ultimamente.



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