Caso Flordelis: cobertura machista?
28 de agosto de 2020
Cristianismo e meio ambiente: uma relação negligenciada
28 de setembro de 2020

Deus nos livre de uma maioria evangélica!

Um estudo do demógrafo José Eustáquio Alves (professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE) revelou que, a partir de 2032, o número de evangélicos no Brasil deverá ultrapassar, pela primeira vez, o número de católicos. Quando eu era adolescente, lembro que isso era motivo de oração na minha igreja e sempre sonhávamos com esse dia, achando que tudo ia melhorar se a maioria das pessoas fossem seguidoras de Jesus. Hoje vejo que a realidade é bem diferente.

Para quê servirá uma maioria evangélica no Brasil? Para reverter a lógica do capital que impera em nosso país, estabelecendo a lógica do amor e do respeito à vida que Cristo ensinou, ou para disputar espaço e dinheiro nas esferas de poder? Para promover a inclusão e acabar com as desigualdades ou para aprofundá-las, impondo uma moral religiosa que exclui e demoniza quem não a segue? Para enaltecer o Evangelho ou para envergonhá-lo? Diante dos sucessivos escândalos no qual a igreja evangélica se vê envolvida, é difícil acreditar que, sendo maioria, consigamos transformar o Brasil para melhor.




Discurso que não condiz com a prática


Estamos neste momento sendo liderados por um presidente que se elegeu com discurso cristão e que recebeu o apoio de milhares de igrejas em todo país, mas qual mudança significativa ele tem promovido? O fato dele ser cristão (o que eu duvido) em quê tem contribuído para que os nossos indicadores sociais melhorem? A sua postura de presidente tem evidenciado que ele é um seguidor de Cristo? Conseguimos ver Cristo em suas atitudes?

E o que dizer das lideranças evangélicas que estão em evidência atualmente? O seu discurso e a sua prática estão promovendo união ou segregação? Respeito ou intolerância? Vida ou morte? Elas se mostram realmente preocupadas em ensinar e praticar o Evangelho ou estão mais interessadas em ficar perto do poder para angariar vantagens pessoais? Não dá pra acreditar na boa fé de uma liderança que é patrocinada por políticos e recebe milhões em troca de apoio. Considerando que é essa trupe a maior responsável pelo crescimento vertiginoso dos evangélicos no país, que tipo de fieis eles estão formando?

Acredito que se tivermos uma maioria evangélica no Brasil, levando em conta que temos crescido de maneira desordenada e pouco instruída sobre a nossa fé, teremos uma proliferação muito maior de escândalos como o de Flordelis, Pastor Everaldo e Bispo Marcelo Crivella. Teremos milhares de “crentes” preocupados muito mais em conseguir vantagens através da igreja (sejam elas políticas, financeiras ou sociais) do que em fazer a diferença num mundo de tragédias e injustiças. Essa igreja vendida que cresce em proporção geométrica adorando os deuses da prosperidade, do dinheiro e do poder, não é a igreja de Cristo e não fará do Brasil um país melhor pra se viver.

A igreja está sendo instrumentalizada para levar canalhas aos mais altos postos de poder, enriquecer mercadores da fé e idiotizar a população brasileira com uma religiosidade rasa, vazia e egoísta. Esse evangelho que tem sido pregado nas “igrejas-show” é uma aberração aos olhos de Deus, pois toma o Seu protagonismo e o coloca nas mãos de gurus espertalhões. É um evangelho que em nada ameaça o status quo, ao contrário: serve para justificá-lo. Nada mais incoerente do que a palavra de Deus sendo usada para justificar violência, uso de armas, discriminação e intolerância. É Deus sendo descartado da Sua própria Palavra, que agora virou um mantra vazio na boca dos ímpios. Jesus disse que o mundo nos odiaria e que por Ele sofreríamos perseguições, mas o que vemos atualmente é uma igreja que usa o Evangelho para perseguir e que é amada pelo mundo, pois absorveu seus valores e se conformou com ele. É essa igreja que está crescendo vertiginosamente e que em breve será majoritária? Então eu quero estar bem longe dela, porque a Palavra de Deus é subversiva demais pra se adequar a qualquer estrutura de poder e conquistar a adesão da maioria.

Ainda ontem ouvi a jornalista e professora cristã Magali Cunha dizer numa discussão online algo que me fez pensar bastante: os verdadeiros evangélicos sempre serão minoria, pois são poucos os que estão realmente dispostos a pagar o preço e ser fiéis até a morte. Nada mais duro e verdadeiro, pois seguir o Evangelho implica em fazer renúncias, especialmente em relação a tudo que o mundo supervaloriza: dinheiro, fama narcisista e poder. A igreja evangélica que está crescendo hoje, definitivamente, não tem feito tais renúncias. Ela não somente tem envergonhado o Evangelho de maneira sistemática, como o tem negado em suas práticas. É uma igreja blasfema vestida de santa, por isso, Deus nos livre do crescimento dessa igreja!




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *