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Deus, Igreja e Bíblia: perdidos no velho mundo?

Pra começar, quem vai colar

os tais caquinhos do velho mundo?

pátrias, famílias, religiões

e preconceitos

quebrou, não tem mais jeito.

(Pra Começar – Marina Lima e Antônio Cícero)

 

Essa música, famosa na voz da cantora Marina Lima, ilustra bem a tônica dos dias atuais, quando instituições que antes eram referências sólidas para a humanidade ocidental foram esvaziadas de sentido e perderam significativamente o seu poder de influência. A religião é uma delas. Atualmente, Deus, igreja e Bíblia são conceitos que muitos consideram ultrapassados, elementos que pararam no tempo e não respondem mais aos nossos anseios. Mas será que eles ficaram mesmo no velho mundo?

Recentemente li o livro Juventude universitária e a leitura da Bíblia em tempos de angústia e desamparo, escrito pelo Pr. Joás Menezes, que foi pastor da juventude da minha igreja e com quem tive a honra de trabalhar por cinco anos. No livro (recomendo a leitura!) ele mostra de forma brilhante que a igreja tem a capacidade de acolher os jovens em seus anseios, medos e angústias através de uma leitura libertadora da Bíblia, oferecendo-lhes as respostas que precisam neste mundo de inseguranças. No entanto, ao terminar de ler, percebi que o que ele traz se aplica perfeitamente a todos os segmentos excluídos da sociedade e a cada um de forma individual.

Ao explicar porque o jovem, de um modo geral, oferece tanta resistência à igreja, o Pr. Joás afirma que ele “precisa ser capacitado para questionar. […] Muitas vezes o ambiente religioso inibe o questionamento, as provocações. Opta mais pela via da imposição, o que dificulta a relação com o jovem”. (MENEZES, 2014, p.27). Sim, a igreja ainda é bastante resistente a questionamentos e isso tem afastado não somente a juventude, mas também mulheres, negros, homossexuais… No mundo de hoje, onde há overdose de informação por todos os lados, não admitir ser questionada e fechar-se para o debate é como decretar a própria obsolescência. É infantilizar as pessoas, como já falei neste texto aqui. Nem os jovens, nem as mulheres nem qualquer segmento que esteja em desvantagem na estrutura de poder patriarcal têm se contentado mais com discursos impostos. Falando aqui mais especificamente das mulheres, elas também têm se sentido sufocadas com essa forma antiquada de evangelizar sem dar espaço para os seus sentimentos e ideias. Nem todas as igrejas agem assim, mas infelizmente as que agem têm mais espaços de fala na sociedade e acabam se destacando mais.

O Evangelho não é engessado, ao contrário, é libertador! E Jesus foi um grande questionador do seu tempo: Ele questionou as duras leis dos fariseus, os costumes e as prioridades de uma sociedade que se importava demais com a religiosidade e esquecia do essencial. Foi Jesus quem nos ensinou esse caminho e nos provocou a sair da nossa zona de conforto, portanto, não tem porquê sustentar uma postura fundamentalista. E, cá entre nós, qual o motivo para uma igreja agir dessa forma se não for para ter controle sobre as pessoas, alimentando a ambição e a vaidade de um pequeno grupo detentor de poder?

A solução que o Pr. Joás aponta em seu livro é, além da abertura de espaço para o diálogo, a prática do estudo bíblico: “é possível instrumentalizar os nossos jovens para uma leitura mais crítica da Bíblia, dialogando com temas atuais, sem comprometer com isso o seu desenvolvimento na fé” (2014, p.28). De forma análoga, essa passagem também se aplica à realidade das mulheres e de outros segmentos desfavorecidos socialmente, pois é plenamente possível alimentá-los espiritualmente e fortalecer a sua fé sem aliená-los de si mesmos, sem secundarizar o seu papel com base numa leitura descontextualizada dos textos sagrados. É necessário fomentar em nossas igrejas o hábito de estudar as Escrituras, e não somente ler, como muitas têm feito até então. Uma leitura superficial pode nos induzir ao erro e à idolatria da Bíblia. Mas, parafraseando o Pr. Joás, as comunidades de fé podem e devem ser o espaço onde todas as pessoas sejam não apenas desafiadas a ler a Bíblia, mas recebam recursos necessários para desenvolver o ‘como ler’ (MENEZES, 2014, p. 85), pois uma fé sem conhecimento é frágil. Como disse Paulo na carta aos Efésios, “o propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro.” (Ef. 4:14).

 O Pr. Joás consegue demonstrar em seu livro, de forma simples mas robusta, que a igreja pode, sim, ser um espaço de acolhimento e resposta em tempos de angústia; que a Bíblia não é nem precisa ser um livro de leitura enfadonha, alienante e descolada dos nossos dilemas atuais; e que Deus não está distante nem insensível ao nosso clamor. Que alívio é saber disso! Que bom que podemos ter essa certeza, apesar de muitos quererem fazer com que pareça o contrário. Não, Deus, igreja e Bíblia não ficaram estagnados no velho mundo e cabe a nós, cristãos, mostrar isso à sociedade. Apesar dos percalços no caminho, temos todas as ferramentas para desfazer a imagem negativa que possuímos e transformar a igreja num lugar atrativo para os jovens, para as mulheres, para os negros e para qualquer pessoa, especialmente aquelas que estão cansadas, oprimidas e sobrecarregadas (Mt 28:30). Esse foi o propósito de Jesus, então deve ser também o nosso.

 

 

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