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Quando eu era adolescente, achava engraçado o fato de Deus ser pai, mas ter todas as características de uma mãe. O conceito que a minha geração tem de pai é meio falho, devido à ausência da figura paterna tão acentuada nos últimos anos, e eu achava que o fato de Deus conseguir ser um pai diferente do que se via na maioria dos casos era algo extraordinário!

Um pai que dá a vida, que cuida, sustenta, acompanha em todos os momentos, ouve, consola, cura, orienta e abençoa só pode ser uma mãe, né? Sim, porque todas essas características fazem parte do imaginário de mãe idealizada que a nossa sociedade tanto prega. E pra muitas pessoas é realmente difícil estabelecer uma relação com Deus-Pai, pois a noção que elas têm de paternidade é bastante problemática, tornando inconciliáveis as ideias de um Deus perfeito e de um pai.

Racionalmente falando, a gente sabe que Deus não é uma pessoa, logo, não é pai nem mãe. Enquadrá-Lo num perfil humano é uma necessidade só nossa, também explicada pelo nosso antropocentrismo. A visão que temos de Deus como homem pode ter sido reforçada pela sua personificação em Jesus, mas com certeza tem origem numa cultura patriarcal e foi se perpetuando com a ajuda dessa mesma cultura. Ivone Gebara, teóloga feminista, explica que temos a predominância de uma teologia masculina que cria hierarquias e desigualdades e que coloca a mulher como “o outro”, numa segunda categoria. Ao descobrir isso e olhar ao meu redor, pude constatar que muitos dogmas machistas das igrejas têm por amparo essa mesma teologia masculina, que coloca Deus como homem e não leva em consideração a vivência feminina. Então eu pude perceber que aquilo que eu achava engraçado na adolescência (um Deus-pai com características de mãe) nada mais é do que a padronização da experiência de Deus, privilegiando o mundo masculino. Na minha cabeça de adolescente, fazia mais sentido Deus ser mãe, mas a igreja me impunha a imagem de um Deus-pai com quem eu tive que aprender a conviver. Ivone Gebara explicou claramente isso:

“[…] no cristianismo as mulheres em geral não puderam exprimir publicamente sua experiência de Deus. Muitas vezes elas acolheram a imagem de Deus que lhes foi proposta ou ensinada por homens, ou simplesmente pela cultura dominante. Isto não quer dizer que elas não recriaram essas imagens em função de sua vida e de seu contexto, mas esta recriação permaneceu no ‘pequeno’ mundo limitado às mulheres. Essas experiências não foram consideradas como contribuição ao ensino ou ao magistério da igreja.” (GEBARA, 2000, p. 225)

Numa tentativa de incentivar uma experiência de fé mais democrática, que contemple tanto o universo masculino quanto o feminino, algumas correntes da teologia feminista defendem a substituição da ideia de Deus-pai e Deus-homem pela ideia de Sabedoria. Ao invés de falar de Deus, cuja imagem já está impregnada pelo masculino, por que não falarmos de Sabedoria, um conceito mais inclusivo que melhor concilia masculino e feminino? Não pretendo me aprofundar nisso (nem teria competência para tal), mas acredito que fazer essa substituição exigiria um enorme esforço, tanto na minha vivência pessoal de fé quanto na coletividade, pois desconstruir o que foi construído ao longo de uma vida e ao longo da história da humanidade não é uma tarefa fácil – o que não significa que não seja importante. Por isso, compartilho da opinião de Ivone Gebara:

“[…] não é preciso provar a paternidade, nem a maternidade, nem a bondade de Deus. É preciso aceitar que Deus seja Deus, isto é, que o Mistério seja Mistério, que o sentido seja sentido além da prisão de nossos discursos.” (GEBARA, 2000, p. 223)

É isso. Deus não está limitado à nossa caixinha de entendimento, muito menos a um discurso dominante e reducionista. Por isso, viva a sua própria experiência e estabeleça sua própria relação com este Ser Supremo que pode ser Pai, mas também pode ser Mãe, Sabedoria, Força Maior ou como você quiser chamá-Lo, desde que entenda a Sua grandiosidade e respeite o Seu poder e o Seu mistério.

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