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Daqui a 150 anos, do que a igreja pedirá desculpas?

No livro Pra que serve Deus?, do escritor e jornalista cristão Philip Yancey, há um relato sobre como a igreja cristã distorceu o Evangelho para apoiar o apartheid na África do Sul e negar os direitos civis nos Estados Unidos, legitimando, assim, o regime segregacionista que pregava a supremacia branca em detrimento da população negra. Passado esse episódio vergonhoso na história da humanidade, muitas igrejas que faziam oposição à luta de Martin Luther King e defendiam a segregação racial fizeram uma retratação perante a população negra, admitindo que haviam “se conformado à cultura ao invés de lhe oferecer um contraponto cristão”. Yancey, então, reconhece que em muitos momentos da história a igreja não se comporta como seguidora de Cristo e faz uma provocação: “Daqui a 150 anos, do que a igreja pedirá desculpas?”

Tenho pensado nisso com muita frequência diante dos últimos acontecimentos em nosso país. Em meio ao cenário caótico que estamos vivendo por causa do coronavírus, com o número de mortes subindo a cada dia e o clima de medo instaurado, estamos assistindo a um verdadeiro circo de horrores na política, protagonizado por um presidente que se apresenta como o Messias e se diz portador da verdade que liberta.

Desconfio de todo e qualquer sujeito que usa o nome de Deus pra ascender politicamente, mas o nosso atual presidente escancarou todas as portas do oportunismo indecente. Não vou nem entrar no mérito da falta de preparo político demonstrada desde sempre, pra não me alongar muito. Quero me ater apenas ao lado “religioso” do homem que se diz o Messias.

 

O testemunho

 

Ele já deu centenas de provas de que não conhece nem vive o Evangelho: adota um discurso de ódio e vingança, ofende e exclui do seu governo negros, índios, mulheres e LGBTQI+, apoia a truculência da ditadura, tem como um de seus lemas o famoso “bandido bom é bandido morto”, usa palavreado chulo e desrespeitoso com profissionais que o cercam (como quando afirmou que a jornalista Patrícia Campos Mello queria “dar o furo”) e mente quase que diariamente. No entanto, ele também cita versículos bíblicos descontextualizados, visita igrejas, usa camisas com dizeres evangélicos e se compara a Jesus. É pouco, mas o suficiente pra encher os olhos de muitos crentes, sedentos por uma liderança que os represente. Sua popularidade entre os evangélicos sempre foi alta e ele recebe o apoio declarado das maiores lideranças pastorais do país. Suas bandeiras conservadoras, como a política anti-aborto e anti-gênero, são lidas como um indicativo de que ele vai “salvar a nação”, pois é um homem “temente a Deus”. Sempre esteve muito explícito o quanto a conduta de Bolsonaro destoa do seu discurso cristão. Mas talvez a sua popularidade tenha sido conquistada por isso mesmo, né? Somos muito incoerentes enquanto igreja e, como disse Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho”.

Mas a situação só piora com a crise da pandemia. Desde o início Bolsonaro tem sido o grande fomentador de uma dicotomia que não deveria existir. O dilema saúde X economia é uma falácia inventada para tentar mascarar o problema, esconder sua falta de habilidade em lidar com ele e segurar os números da crise econômica, que já não iam nada bem. Mas uma coisa está muito clara desde o início: quem vai pagar o preço dessa manobra somos nós. Bolsonaro insiste em minimizar a gravidade do coronavírus, convoca manifestações de apoio nas ruas, incentiva a volta ao trabalho e empurra os brasileiros pra morte todos os dias. Na contramão do mundo, desobedecendo as orientações internacionais e o próprio Ministério da Saúde, ele age como um insano negando a realidade, os números e o caos que se tornou o sistema de saúde no Brasil. Em seus discursos, admite: vai morrer gente. Uns velhinhos aí. Mas não demonstra a menor empatia pelas pessoas que estão morrendo nem pelos familiares que choram a dor da perda. Importante é a economia. O Brasil não pode parar. Ao ser indagado sobre o número de mortes no país, que chegou a 5 mil pessoas e ultrapassou a China, Bolsonaro soltou uma frase que é o retrato do seu descaso e despreparo: “E daí? Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre!”

 

De qual cristianismo estamos falando?

 

Pior do que a dor dos brasileiros ao ouvir uma resposta dessas é ver a igreja CRISTÃ aplaudindo e apoiando tudo isso. Não é possível que os cristãos achem que Jesus endossaria essa postura criminosa, genocida e indiferente diante da morte de mais de 5 mil pessoas. Que Jesus é esse que as pessoas conhecem nas igrejas? Não é o Jesus da Bíblia, que chorou diante de Jerusalém por causa da perdição da humanidade (Lc 19:41-42), que livrou a mulher adúltera da morte (Jo 8), que se compadeceu com cada dor, cada enfermidade daqueles que se aproximaram dEle na esperança de uma cura. Não, esse Jesus não diria “e daí?” a ninguém que o procurasse em busca de respostas para sua aflição. Tampouco pensaria nos lucros das empresas em detrimento das vidas de quem faz as empresas lucrarem. Nunca conheci esse Jesus frio e assassino que está sendo evocado pelo homem que dirige o nosso país. “Temos Deus conosco”, ele afirmou no último domingo (03), em meio a uma manifestação antidemocrática que clamou pelo fechamento do Congresso e pela intervenção militar. E a igreja? Aplaudiu.

Neste momento me sinto totalmente desesperançosa. Como é possível a igreja de Cristo acreditar no messianismo de um homem que é a caricatura de todos os falsos profetas a quem Jesus se referiu? Um homem que abusa dos trejeitos descritos no Novo e no Antigo Testamento para caracterizar os fariseus e hipócritas da fé, que usavam a religião como instrumento de manipulação do povo? Será que os cristãos nunca leram a Bíblia? Será que não aprenderam nada com os estudos e com os sermões que ouvem semanalmente? Como é possível a igreja permitir que a imagem de Deus seja escarnecida a esse ponto, admitindo que Ele é o guia de um homem que todos os dias dá provas de que está bem longe dos Seus ensinamentos?

Que igreja é essa, meu Deus? Será que tantos anos de evangelismo, missões e discipulado não têm valido nada? Em que parte do caminho o Evangelho foi torcido para ser utilizado nos palanques políticos, sem o menor senso crítico de quem usa e de quem escuta? Que igreja é essa que não sabe discernir uma postura tão escancaradamente oportunista de quem se diz seguidor de Cristo, mas não se abala com a morte de milhares de pessoas e age de forma genocida? Cristo NUNCA teve relação alguma com nada disso, será que é tão difícil perceber algo que está tão explícito?

Não acredito na ingenuidade da igreja. Acredito, sim, num cristianismo de conveniência, que ao invés de incomodar os corações para gerar uma mudança de atitude, escolhe a dedo os ensinamentos que vai obedecer de acordo com seus interesses. Acredito numa igreja farisaica, que sabe exatamente o que está fazendo ao apoiar lideranças políticas como Bolsonaro e sabe onde quer chegar com esse apoio. Uma igreja que não é a igreja de Cristo, mas usa esse rótulo para obter benesses, garantir privilégios, alçar mais poder e arrecadar mais dízimos. E não estou falando apenas das lideranças, não. Os membros também são coniventes e usam o cristianismo para dar vazão aos seus interesses mais mesquinhos e segregacionistas. O Evangelho para eles é um eficiente meio para conseguir alcançar os objetivos mais vis. Absurda e paradoxalmente, nada convence mais do que um “Glória a Deus” entre uma torpeza e outra, do que um versículo solto dito aqui e ali pra enganar cristãos rasos que têm preguiça de analisar as coisas à luz das Escrituras.

Bolsonaro é o reflexo desse cristianismo preguiçoso e egoísta, que não lê a Bíblia, que não faz questão de praticar o que Jesus ensina e que vai à igreja tão somente como quem cumpre um mero ritual social. Um cristianismo soberbo e egocêntrico, que acha que Deus é manipulável e está do seu lado para endossar suas atitudes, por mais anti-cristãs que elas sejam. Bolsonaro reflete milhares de “cristãos” vazios, que não querem compromisso com Cristo, mas sim uma maneira de se destacar socialmente através do discurso de salvação (“eu sou salvo, portanto, sou melhor que os outros”). É por isso que ele tem o apoio de tantos “cristãos”. É duro constatar, mas a igreja no Brasil hoje tem a cara de Bolsonaro: vazia, ignorante, despreparada, arrogante, hipócrita e herética. E foi reconhecendo seu próprio reflexo nele que ela trabalhou para elegê-lo. Parece ironia: Bolsonaro faz chacota da igreja ao encenar o típico crente fanático e obtuso que prega um deus que mais se parece consigo. E a igreja não só aceita com também se identifica, sem o menor senso de auto-crítica. Talvez porque saiba que foi nisso mesmo que ela se transformou: num motivo de piada, algo que não pode ser levado a sério.

Não me envergonho do Evangelho, mas hoje sinto vergonha de ser cristã. Tudo isso que está aí não tem nada a ver com Deus – tem a ver com a natureza decaída dos homens.

Tem algo de muito errado nas igrejas e que precisa mudar urgentemente. Jesus ensinou que pelos frutos se conhece a árvore (Lc 6:44), mas os frutos da igreja atualmente têm cheiro de dinheiro e gosto de sangue. “Daqui a 150 anos, do que a igreja pedirá desculpas?”. A pergunta de Philip Yansey não sai da minha cabeça. Algo me diz que teremos mais esse capítulo nefasto da história para nos desculpar. Depois da morte de Cristo, da inquisição, da escravidão, do apartheid, da ditadura militar e de tantos outros crimes que a igreja apoiou, é de se espantar como ela não aprendeu nada com os erros do seu passado! No futuro, Yansey, a igreja brasileira vai pedir desculpas por ter apoiado o bolsonarismo. Só lamento o fato de que quando esse dia chegar, provavelmente ela estará apoiando uma outra causa anti-cristã com justificativas “evangélicas”. Que Deus tenha piedade de nós.



1 Comentário

  1. Agnes disse:

    Excelente texto e reflexão. É realmente vergonhoso e revoltante ver a situação da igreja evangélica atual, que repete os mesmos erros de sempre. Muito obrigada por através desse texto tentar abrir os olhos de muitos.

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