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Cristianismo e meio ambiente: uma relação negligenciada

Fumaça e chamas de queimada no Pantanal, em Poconé, no Mato Grosso (Foto: Amanda Perobelli - 03.set.2020 / Reuters)

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. (Gn 1:28)


Como você entende esta passagem?

Alguns temas são bastante negligenciados nas discussões das igrejas e um deles é a ecologia. Nos meus 20 anos de igreja batista, não me lembro de ter ouvido sequer um sermão ou debate de EBD sobre o assunto. Isso mostra o quanto o nosso cristianismo é androcêntrico, pois temos uma teologia que está profundamente centrada no homem e que pensa Deus a partir dele.

A ausência do tema ecologia nos púlpitos e nos grupos de discipulado das igrejas é agravada pela interpretação rasa que muitas vezes se faz da passagem de Gn 1:28. Cresci ouvindo que Deus nos deu autoridade pra dominar a Terra, mas tal afirmação, que geralmente não é bem explicada, nos coloca num lugar de superioridade e poder irrestrito que é muito perigoso. Mas afinal, o que essa passagem quer dizer? A Bíblia realmente nos dá carta branca pra dominar os animais e a natureza?

O mestre em exegese bíblica e professor da PUC Mariosan de Souza Marques escreveu um artigo intitulado Relendo Gn 1:28 em seu contexto: a questão ecológica e a desbrutalização das relações (disponível aqui). Nele, o professor faz uma análise detalhada que inclui a estrutura do texto, o contexto em que foi escrito e o sentido das palavras originais em hebraico traduzidas para o português como “subjugar“, “dominar” ou “governar”. Marques conclui que


“[…] ‘governar’ e ‘dominar’ significam na Bíblia não somente exercitar o poder, mas sobretudo, ser responsável no exercício de representar Deus no cuidado da criação. […] Os verbos ‘subjugar’ e ‘dominar’ não podem ser pretextos para uma visão antropocêntrica que sustente uma exploração irresponsável nos recursos da criação. Pelo contrário, esses verbos mostram a ‘missão’ da humanidade que possui o emblema real da imagem e semelhança divina no sentido de cuidado, de um tanger sem aspereza e sem violência.” (MARQUES, 2016:368-369)


Dificilmente essa discussão recebe a devida importância nos ambientes eclesiásticos, seja por ignorância de muitas lideranças, seja pela falta de consciência de que a experiência de fé está intrinsecamente ligada ao meio ambiente. No entanto, essa omissão tem gerado frutos negativos que podemos perceber facilmente no nosso entorno. A ação humana tem provocado desequilíbrios ambientais assustadoramente crescentes, gerando o desaparecimento de milhares de espécies, a escassez de recursos básicos para a nossa sobrevivência e o surgimento de doenças e pandemias como a que vivemos hoje, de modo que a nossa própria existência está ameaçada.

Não estou querendo colocar a culpa dos desastres ecológicos na conta da igreja, de forma alguma. Seria reducionista da minha parte. Mas acredito que se a igreja cristã utilizasse o poder que tem no mundo ocidental para dar visibilidade às questões ambientais e educar seus seguidores, isso faria uma enorme diferença no planeta, sem dúvida. Até porque a nossa fé não está apartada do meio ambiente, ao contrário: temos consciência de que tudo que está na natureza é criação divina, portanto, é tão sagrado quanto sagrada é a vida humana. O que nos falta é fazer a conexão entre esse conhecimento e a nossa vida cotidiana, que é totalmente dependente dos recursos naturais – ainda que não vivamos numa floresta ou num ambiente rural. É responsabilidade, sim, das igrejas, ajudar a formar e fortalecer essa consciência, afinal, como bem explicou o professor Marques, recebemos de Deus a missão de cuidar de tudo o que foi colocado à nossa disposição. Como um país majoritariamente cristão como o Brasil permite atrocidades como o desmatamento da Amazônia, as queimadas criminosas que têm ganhado destaque nos noticiários e a poluição excessiva do ar nos grandes centros urbanos? É algo que não tem coerência.

Estamos num momento crucial, em que não dá mais pra ignorar os gritos do meio ambiente. Nossa relação de desarmonia com o planeta tem trazido consequências fatais para todos os seres vivos, principalmente para nós mesmos, além de representar uma desobediência à ordenança divina e um desrespeito ao sagrado que está presente em toda a Sua criação. Um dos grandes desafios propostos pela teologia feminista é o de superar a ideia de um Deus que está fora de nós e fora de tudo que nos cerca, um Deus separado que apenas observa. Não! Deus está em nós, está na natureza, em cada ser vivo, está no ar que respiramos, na água que precisamos pra viver… Deus é a natureza, o ecossistema, o planeta. Quando a gente entende isso, torna-se urgente promover o cuidado e o respeito com todo esse presente que nos foi confiado. Isso também é cristianismo e ato de fé.




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