Porque a minha experiência importa, sim!
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As mulheres têm medo do poder?
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“Você é feminista!”, diziam.

“Não sou nada!”, eu retrucava.

Quantas e quantas vezes vivi esse diálogo na igreja! Minhas contestações na escola bíblica ou nas rodas de discussão me valeram essa e outras acusações, sempre em tons de chacota (comunista, darwinista, anarquista e por aí vai). Eu negava todas. Quanto a ser feminista, era uma acusação que eu sempre soube que deveria pensar a respeito mas, na dúvida, negava.

A igreja costuma criar um monstro em torno do feminismo: é uma corrente demoníaca de pensamento, destrói famílias, masculiniza mulheres, desvirtua a natureza feminina…. E mesmo tendo sido criada numa igreja que estimulava a fé racional, o estudo e as discussões, eu também ouvia todos esses mitos. Quando falavam de feminismo ninguém tinha argumentos embasados para criticar, era apenas uma repetição de estereótipos. Havia algo de negativo nisso que eu não entendia bem o que era, mas que me levava a recusar o rótulo, até pela forma sarcástica como ele me era dado – quase me chamando de herege. Uma vez me perguntaram “por que você não assume logo que é?” e eu respondi que precisava pesquisar primeiro, entender do que se tratava e avaliar se as acusações da igreja tinham procedência. Tinha medo de carregar uma bandeira que negasse a minha fé e era essa a impressão que as pessoas me davam.

Depois de anos adiando essa pesquisa, quando me formei decidi que era hora de estudar tudo que eu sempre tive vontade, mas não tinha tempo. A lista era grande e o feminismo estava nela, mas não era prioridade. Até que um livro feminista caiu no meu colo, quase literalmente, num momento em que eu estava cheia de crises e dúvidas: O mito da beleza, de Naomi Wolf. Não conseguia parar de ler e fui me identificando com tudo aquilo que estava sendo dito. Era esse o tal feminismo, afinal! Confesso que tive um pouco de medo no início. Será que estou enveredando por um caminho sem volta que vai me afastar de Deus? Será que minha fé será abalada? Fui alertada por alguns sobre isso, que tentaram me desencorajar, mas minha formação “batistona” me fez ir atrás de mais respostas. As pesquisas me levaram a descobrir a teologia feminista (por que ninguém me falou disso antes?!?!) e um mundo totalmente novo! Pude re-conhecer o meu Deus sob a ótica feminina, desconstruindo muitas ideias sobre Ele que aprendi ao longo da vida e que priorizavam a experiência masculina com o divino. À medida que vou estudando vou entendendo cada vez mais que a minha relação com Deus tem valor e que eu não preciso pautá-la nos modelos masculinos que costumamos receber. Enfim, minhas pesquisas me levaram a entender que muito do que se fala sobre o feminismo não passa de preconceito e serve para mascarar o medo que a sociedade tem de mulheres que conhecem o seu valor.

Steve Biko já dizia que “a arma mais poderosa na mão do opressor é a mente dos oprimidos” e é exatamente isso que acontece com as mulheres: temos a mesma capacidade intelectual que os homens, mas nossas mentes foram habilmente trabalhadas para agirmos como se fóssemos menos capazes, dependentes, nos tornando vulneráveis diante deles. O fato é que a sociedade que conhecemos hoje está alicerçada no machismo e no patriarcalismo e isso gera lucro, gera privilégios para poucos e faz uma maioria numérica (que somos nós) se submeter voluntariamente a uma minoria privilegiada, garantindo a perpetuação do sistema. E o feminismo vem para ameaçar tudo isso. A partir do momento que entendemos o nosso lugar na sociedade e percebemos que estamos sendo subjugadas; a partir do momento em que descobrimos a nossa força e não aceitamos mais o papel de subalternas; que passamos a contestar a divisão sexual de trabalho e a atribuição desigual de valores com base unicamente no sexo, não seremos mais escravas de um sistema explorador, injusto e cruel conosco. Quer algo mais ameaçador para o status quo?

Nossos opressores têm medo que a gente se rebele, medo de que não aceitemos mais sustentá-los num patamar superior. Isso implica em incontáveis perdas e, obviamente, ninguém quer perder. É por isso que o feminismo assusta tanto, inclusive e principalmente dentro de comunidades que ostentam valores patriarcais como mérito – tipo as igrejas. Depois que entendi isso, perdi o medo de me assumir uma cristã feminista.

Quem segue a Jesus e examina as Escrituras entende que religião nenhuma salva e que é somente a Ele que devemos obedecer, não a uma instituição falha formada por homens de carne e osso. Entende também que Jesus adotou uma postura totalmente libertária frente às convenções sociais e ao moralismo hipócrita de sua época, que insistem em permanecer até os dias de hoje. Entende que Ele não compactuou com nenhum tipo de opressão e que dignificou todo e qualquer ser humano, sem distinção de sexo, idade, renda ou nível social. Quem se propõe a seguir a Jesus tem que buscar ser como Ele e tentar se despir ao máximo de seus preconceitos. Quanto mais eu O conheço, mais percebo o quanto Ele foi revolucionário em seus atos e o quanto a igreja tem se distanciado disso. Como eu não quero ser seguidora de religião, posso dizer sem medo de errar que não há incompatibilidade alguma em ser cristã e ser feminista, buscando dignidade para as mulheres, assim como Jesus fez. E hoje, quando me chamam de feminista em tom acusatório, respondo que sou, sim, graças a Deus! Porque foi Ele quem me deu o valor que hoje eu luto pra recuperar, o valor que me foi tirado pela soberba e falta de amor dos homens. Eu me assumi para resgatar a minha identidade, que me foi dada pelo Senhor. E você? Quando vai assumir a porção que lhe cabe?

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