Mas afinal, a mulher pode ser pastora?
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Logo no início da minha caminhada na fé, muitas foram as tentativas dos religiosos de me moldar a um padrão aceitável para eles: o cabelo liso. Enchiam minha cabeça de informações presunçosas e, tentando me manipular, alertavam: para eu me tornar um dia uma missionária, teria que usar o bom e velho coque, cabelos alisados e sempre amarrados para trás. Diziam que Deus queria meu rosto bem visível a todos, como se meu cabelo black power interferisse nisso. Mas eu sei que muitos evangélicos são movidos pela religiosidade, o que os leva a olhar com tom de crítica para tudo e todos e permanecer num posicionamento de depreciação das pessoas. Consciente disto, escolhi permanecer fiel ao que acredito: no Senhor Jesus e no seu amor incondicional.

Fui caminhando firme no meu propósito e na certeza de que Deus me ama do jeito que Ele me projetou! Afinal de contas, os projetos de Deus poderiam dar errado? Na cabeça dos religiosos, sim, pois para eles, uma crente como eu, black power, deveria alisar o cabelo para ser aceita pelo “deus” preconceituoso que eles criaram.

Constrangimentos

Passei por muitos momentos delicados na igreja, os quais hoje consigo enxergar como discriminação racial disfarçada.

Aconteceu algumas vezes de pastores convidados pregarem mensagens racistas na congregação que eu frequentava. Com frequência eles afirmavam, durante a pregação, que a mulher “estava na prova” por estar com o cabelo “duro, para cima”. Muitos olhavam para mim rindo, pois eu era a única black power na igreja. Esse tipo de discurso preconceituoso com a estética do negro dificultava a aceitação dos fios naturais, pois gerava um grande desconforto e constrangimento do qual eu era alvo. As outras meninas e mulheres negras passavam horas no salão buscando o melhor alisamento para seus cabelos crespos, enquanto eu estava em casa fazendo umectação com óleos diversos para hidratar meu black power. Mesmo com tudo isso, eu não tinha desejo nenhum de modificar meu estilo natural por pressão da igreja.

Muitas irmãs viravam o rosto para não me cumprimentar na rua ou fingiam que não me viam, por mais que esbarrássemos face a face. Muitas diziam de maneira sutil: “Ah, seu rosto é lindo, o cabelo alisado combina tanto contigo…”. Havia também aquelas mais espirituais, que afirmavam “Deus quer renúncia tua!” para se referir ao meu estilo. E eu fiquei por um tempo muito embaraçada, perdida e solitária.

Certo dia, num culto no lar, um pastor me perguntou: “Você está firme com Jesus?”. Respondi “sim, estou!” e ele, infeliz, me retrucou “ah, e esse cabelo aí? Tem que mudar, vai deixar como está?”, numa clara recriminação. A casa estava cheia e eu lá, me sentindo humilhada. Chorei tanto em casa, peguei o notebook e pesquisei na internet: “ser cristã e ter o cabelo black power é pecado?”. Queria saber se era pecado ser como eu era. Não encontrei nada, não havia problema algum, mas mesmo assim relaxei o cabelo com permanente e amarrei pra trás, pois queria mostrar que eu estava certa da minha decisão de fé. Eu era crente, era isso que queria passar! Isso só me deixou mais angustiada e frustrada! Fui ao salão, cortei tudo e foi um reboliço! “Crente não corta cabelo!”, diziam eles. Mas eu me senti liberta da religiosidade, da prisão que eles queriam me colocar ditando tudo! Permaneci crente em Cristo usando turbantes fashions e óculos escuros.

Atualmente ministro a palavra de Deus para mulheres e fui presenteada com empatia. Respeito a dor do gay, da lésbica, do rejeitado pela sociedade… eu sei que rejeição dói, então evito que alguém por perto sinta. Sei que, como seguidora de Cristo, sou amor, sou paz, sou indignação inserida e aplicada na hora e tempo certo! Ainda enfrento muita discriminação por causa da minha estética, mas se você me perguntar como eu me sinto, eu sigo resistindo! Resistindo aos olhares, às dúvidas, às rejeições… Entendi que preciso, ainda que de maneira anônima, ser referência de aceitação e de empoderamento no meio que estou inserida. Existem pessoas que estão se encorajando em meio às nossas dores, percebendo que se eu resisto, tu resistes, nós resistimos e isso está dando certo! A intenção não é negativar ou oprimir quem alisa o cabelo crespo, é trazer a informação de que ninguém tem poder de impor o que é feio ou belo. E com certeza o negro é belo, nossa beleza é intimista, é maravilhosa e mais mulheres precisam saber disto. Somos naturalmente inspiradoras e cativantes!

Lorena Menezes tem 31 anos, é ativista negra, ministra do Evangelho e criadora da página Irmã Black Power.

2 Comentários

  1. Lorena Menezes disse:

    Oi Adriana,obrigada pelo feedback positivo! E que bom que também viveu a experiencia de descoberta que a transição traz para gente ,não estamos sozinhas né? isto é incrível,precisamos combater a discriminação étnico-racial em todo ambiente,principalmente na igreja… eu creio que nossa missão social é importante,obrigada de coração. bjs Lore

  2. Adriana disse:

    Lorena, que texto lindo! Tudo que você citou é recorrente na igreja e é algo que precsa ser combatido. Também foi uma libertação para mim há quatro anos a tirar toda química do meu cabelo e aceitar quem sou , sou bela assim. Muito obrigada por esse texto maravilhoso que vai inspirar várias pessoas!

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