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Coronavírus: uma epidemia que revela outra

O surto de coronavírus no Brasil tem sido revelador em vários aspectos.

Revelou o tamanho do abismo social entre “ricos” e pobres: de um lado, pessoas privilegiadas que podem trabalhar home office, comprar álcool em gel por R$ 40,00 e preservar sua saúde em casa. De outro, pessoas que não conseguem nem comprar sabonetes pro mês inteiro e precisam enfrentar os riscos da doença todos os dias para garantir seus empregos ou sua renda informal.

Revelou o tamanho da nossa ignorância diante de um inimigo invisível que está matando milhares de pessoas em todo mundo. Muita gente que, podendo ficar em casa, simplesmente tem ignorado os alertas e mantido seu ritmo de vida normal, como se nada estivesse acontecendo – colocando em risco a sua própria vida e a dos outros.

Revelou ainda o quanto temos uma política de saúde frágil e um governo incompetente para lidar com uma ameaça desta proporção. Em meio a um cenário aterrorizante no mundo todo, o nosso Presidente diz que é apenas uma “gripezinha” e não só se recusa a adotar medidas drásticas para conter o vírus como também incentiva, de forma irresponsável, os ajuntamentos em passeatas, shoppings e igrejas. Talvez pra disfarçar a sua total ignorância sobre o que fazer neste momento, vai saber.

Outra revelação da epidemia foi sobre os nossos hábitos de higiene: contrariando a fama que temos no resto do mundo de sermos um povo limpo, percebemos que não somos tão limpos assim diante da necessidade de reforçar tantas vezes a importância de lavar as mãos, de tomar banho ao chegar da rua, de lavar os alimentos etc.. Hábitos que já deveriam estar incorporados ao nosso dia a dia, mas que agora vimos que não estão.

Mas dentre tantas revelações, uma me chamou mais atenção do que as outras. O isolamento compulsório de uma parcela significativa da população obrigou-a a encarar de perto o que talvez seja a grande epidemia do século: os transtornos mentais. Ansiedade, depressão, transtorno-obsessivo compulsivo, somatização e outros estão apavorando as pessoas já apavoradas pelo coronavírus que se isolaram em quarentena.

 


Males ocultos


 

Ter que ficar em casa num momento de dor, preocupação e angústia generalizadas já é, por si só, um gerador de ansiedade. Mas a quarentena forçada do coronavírus nos revelou uma quantidade imensa de pessoas que já apresentavam sintomas de algum transtorno mental, mas que por algum motivo nunca trataram – e tudo veio à tona agora. O que isso diz sobre nós e a sociedade em que vivemos? Por que temos tanto medo de ficar sozinhos e lidar com nossos próprios pensamentos? Até que ponto o nosso estilo de vida tem causado tudo isso? Como não sou psicóloga, não tenho competência para responder a todas essas perguntas, mas queria trazer uma reflexão a partir do que tenho visto.

Vivemos um dia a dia atarefado, com jornadas extenuantes de trabalho e demandas das mais diversas, que incluem casa, filhos, parentes e outras atividades sociais com as quais nos envolvemos. É raro encontrar hoje, pelo menos nos centros urbanos, uma pessoa que diga que tem tempo sobrando para fazer algo. Tempo virou artigo de luxo.

Em meio a tantas demandas, é difícil parar pra refletir sobre as próprias emoções, pra se analisar e se perceber. Não temos tempo para cuidar de nós, precisamos dar conta das centenas de atividades que surgem. Parece que ficar sozinho e ter tempo pra si é um crime. Sentimos culpa, tédio, angústia, não sabemos como lidar. É que vestimos a camisa do capitalismo e incorporamos a ideia de que precisamos ser produtivos o tempo todo. Nessa loucura de produzir em tempo integral, cuidar do corpo muitas vezes soa como futilidade e cuidar da mente é considerado frescura, quando na verdade deveriam ser prioridades.

Ficamos tão presos na nossa própria rotina corrida que também não percebemos os outros ao nosso redor, entrando, portanto, num modo de isolamento. Assim, acabamos muitas vezes por restringir os nossos relacionamentos interpessoais aos contatos das redes sociais, um lugar onde todo mundo é feliz e curte a vida como ninguém. Como perceber que as coisas não vão bem com o outro se no Instagram as fotos mostram sorrisos, viagens e declarações? Como perceber que as coisas não vão bem comigo se eu sou tão popular nas redes, as pessoas me elogiam e acham que minha vida é legal? Então vamos adoecendo aos poucos e, sem perceber, estamos fugindo de nós mesmos.

Aí quando vem um acontecimento que nos tira dessa correria e nos obriga a parar, nos damos conta de que tem algo que não vai muito bem. As emoções, sempre deixadas pra depois, um dia emergem como um tsunami. Encarar esse tsunami num momento de crise mundial, com as pessoas amedrontadas, se torna ainda mais difícil do que já é.

Vivemos debaixo de um sistema capitalista que nos adoece, que nos obriga a viver de forma pré-formatada e muitas vezes não conseguimos fugir muito disso. Mas também não precisamos nos entregar. Acho que investir nos relacionamentos interpessoais, buscar estar mais perto, conversar pessoalmente, abraçar, oferecer ajuda, investir num tempo pra si (meditando, lendo, fazendo alguma atividade física ou algo de que você goste) são coisas que nos fortalecem como seres humanos e nos fazem lembrar que somos gente, não máquinas. São formas de resistir e dizer que não aceitamos o modelo de vida imposto, no qual temos que dedicar a maior parte do nosso tempo ao trabalho. Acrescento ainda que investir na espiritualidade e no relacionamento com Deus também é fundamental para que tenhamos força num momento de crise. Deus, família e bons amigos nos fornecem uma base firme para que possamos enfrentar as adversidades sem achar que estamos sozinhos. Que essa quarentena nos ajude a repensar o modo como vivemos. Que possamos enxergar que resistir a um sistema perverso e não obedecer à risca às suas imposições pode ser uma questão de vida ou morte, de saúde ou doença.



 

 

***Se você está sofrendo agora e precisa de ajuda imediata, acesse o site A Chave da Questão. Lá tem profissionais disponíveis para dar aconselhamento terapêutico e ajudar num momento de crise. Além dele, várias igrejas estão oferecendo atendimento virtual para pessoas angustiadas com este momento que vivemos. Procure uma na sua cidade e busque ajuda de uma liderança espiritual. Mas não se esqueça: religião não substitui tratamento psicológico. Assim que puder, procure ajuda de um profissional. Juntas, a psicologia e a fé e podem te ajudar a superar os transtornos da mente e as angústias da alma.



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