Evas modernas no Éden machista
10 de março de 2017
Igreja, autoridade e um discurso anestesiante
3 de abril de 2017

Sabe aquela sensação de “isso só acontece comigo”? Sabe quando a gente passa por algum problema pessoal e acaba achando que é um problema só nosso? Porque final de contas, “ninguém enfrenta esse tipo de coisa, só eu mesma”. Por isso a gente acaba ficando quietinha e não comentando nada com ninguém, tentando resolver sozinha um problema que é “só nosso”. Com certeza você conhece bem isso, né? Pois é. Você está errada.

Uma das coisas que mais prejudica nós, mulheres, é a falta de informação. Muitas vezes desconhecemos problemas que são bastante comuns no universo feminino e achamos que só nós os enfrentamos, que é uma coisa pessoal, e por isso não falamos sobre eles. Como não falamos, ninguém fica sabendo, portanto, ninguém pode nos ajudar. E quase nunca a gente consegue resolver sozinha porque muitas vezes são problemas que não nos envolvem apenas, envolvem outras pessoas também ou envolvem uma estrutura maior que nós. Isso acontece muito com a nossa vida sexual, pois ainda existe o tabu de que mulher não pode falar / sentir / vivenciar o sexo. Daí a gente acaba achando que os nossos problemas sexuais são só nossos, que ninguém tem que saber porque ninguém tem nada a ver com isso, que não acontecem com mais ninguém… Também acontece quando sofremos algum tipo de abuso, seja ele moral, físico ou sexual, mas acabamos acreditando que é frescura ou que a culpa é nossa, então, deixamos pra lá e ninguém fica sabendo. É muito comum também quando enfrentamos algum distúrbio alimentar sem saber e seguimos acreditamos que é apenas uma preocupação individual com o corpo, vaidade, cuidado pessoal… coisa nossa, sabe?  Enfim, é assim com esses e vários outros tipos de problemas que acreditamos ser de foro íntimo. Sabe qual é a verdade? Eles não são.

Quando eu estava recém-formada, fui contratada por uma empresa onde passei a sofrer assédio moral. Na época, por ser muito nova e não ter experiência no mercado de trabalho, não sabia como isso acontecia na prática. Poucas pessoas souberam disso (contei apenas para o meu namorado e para alguns poucos amigos, que eram tão inexperientes quanto eu). Portanto, ninguém pôde me ajudar e eu passei um bom tempo achando que o problema era meu – eu que era incompetente, eu que não tinha uma postura legal no trabalho… Depois de muita angústia, muitos pesadelos e até do surgimento de manchas vermelhas na minha pele, causadas pelo estresse a que eu era submetida diariamente, é que tomei coragem para pedir demissão. Quando mudei de emprego e percebi a diferença no tratamento que recebia é que pude saber que não, o problema não era meu. Só três anos depois eu descobri que tinha sido vítima de assédio moral.

O mesmo aconteceu com as diversas situações de assédio sexual que sofri ao longo da vida. Pouquíssimas pessoas souberam porque eu sempre tratei isso como um fato isolado, que não acontece com todo mundo (eu é que me achava azarada por passar por esse tipo de situação tantas vezes). Também não era verdade. Milhares de mulheres sofrem com assédio sexual todos os dias nas ruas, no trabalho e em várias outras situações e a gente não fica sabendo porque as vítimas não falam, por pensar da mesma forma que eu pensava.

O nosso silêncio não nos favorece. Quanto mais ficarmos isoladas em nós mesmas, sem compartilhar nossos problemas, menos conseguiremos resolvê-los e mais fácil será a nossa dominação. Mulheres que não compartilham seus problemas e suas angústias não apresentam riscos aos seus opressores simplesmente porque elas não têm coragem de denunciar ou sequer sabem que muitas vezes estão sendo vítimas de uma violência. É muito conveniente para o machismo dominante nos manter isoladas, desinformadas e fragilizadas, pois isso garante o exercício impune dos seus atos opressivos. Daí a criação de mitos como “mulher não é amiga de mulher”, “uma mulher tem inveja da outra”, “mulheres competem entre si” etc. etc. etc.

Uma coisa muito valiosa que o feminismo me ensinou foi que o pessoal é político. O que acontece na nossa vida pessoal muitas vezes é um ato político praticado por quem quer nos manter num patamar de dominação. Fazer com que nós acreditemos que os nossos problemas são pessoais e não devem ser compartilhados é uma estratégia política para nos manter isoladas, sem informação e sem forças para reagir. Não se calar diante disso também é um ato político da nossa parte, pois os abusos precisam ser denunciados e outras mulheres precisam saber como eles acontecem para poder se defender também. Sejamos, portanto, estrategicamente politizadas, para a nossa própria proteção. Não há problema que não possa ser compartilhado, sempre haverá alguém para nos ajudar. Quanto mais vergonha ou culpa você tem de compartilhar esse problema, mais forte é o sinal de que ele não é só seu. Se você é tímida e prefere se preservar mais, não precisa se expor pra todo mundo – apenas converse com outras mulheres, de preferência mais velhas e mais experientes. Leia, pesquise, pergunte, se informe. Nossas maiores armas são a informação e a união, porque sozinhas não poderemos combater a violência contra a mulher nem identificar os males que o machismo nos impõe.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *