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Casamento burguês e solidão a dois

O livro de Gênesis fala claramente que a solidão do homem foi um motivo de preocupação para Deus: “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele (Gn 2:18). A solução encontrada? Uma companheira à altura. E assim nasceu o casamento: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gn 2:24).

Deus se preocupou com a solidão e criou a solução perfeita: uma companhia. Num casamento, ao menos teoricamente, a solidão não deveria ser um problema – afinal, eles estão unidos numa só carne. Mas na prática sabemos que não é bem assim que acontece. Estar casada(o) não significa estar acompanhada(o).

Já escrevi vários textos aqui no blog sobre os discursos utilizados por muitas igrejas para fazer do casamento uma forma de domesticação e dominação da mulher. A igreja se preocupa muito com esse assunto, com a manutenção da família, mas nem sempre o objetivo é nobre. Muitas vezes é uma questão de manutenção do status quo para os homens, que ocupam lugares de privilégio na sociedade e no lar. Esse é um dos motivos pelos quais muitos acreditam que o casamento é uma instituição burguesa, branca e heteronormativa, pois ele tem sido frequentemente utilizado, dentro e fora da igreja, para manter fachadas e vidas de aparência que servem para legitimar posições de poder e/ou esconder realidades que não se quer admitir (vide os casamentos de políticos, que em muitos casos não passam de um mero contrato).

A igreja peca ao se deixar contaminar por valores do mundo e ensinar sobre casamento de uma forma que serve aos interesses machistas, capitalistas e burgueses. E quem paga o preço são as partes mais frágeis, que geralmente são a mulher e os filhos. No ideário cristão-moralista, a mulher suporta todas as dificuldades do casamento sozinha, pois ela é o sustentáculo emocional da família. Se a mulher está bem, toda a família fica bem porque ela trabalha eficientemente para eles. E suportar as dificuldades significa ter que engolir tudo: indiferença, ausência, falta de diálogo, falta de companheirismo, sobrecarga com os filhos, traições e tudo mais que possa decorrer de uma relação forjada no princípio da desigualdade: o homem é o cabeça, a mulher é submissa.

É claro que na prática isso não funciona, mas quem sabe disso somos nós, mulheres. Os homens não sabem porque não sofrem na pele. E também não querem saber, já que pra eles ter uma esposa-quase-escrava funciona muito bem (para os propósitos mundanos de família funcional burguesa). O resultado disso? Mulheres casadas e solitárias. Mulheres que não têm com quem dividir suas dificuldades, seus anseios, suas angústias, que não têm com quem conversar, não desfrutam da companhia de um marido amigo, não podem dividir com o pai dos seus filhos a responsabilidade da criação… mulheres que ficam tão sobrecarregadas com seu fardo que acabam sendo preteridas pelos próprios maridos, que vão em busca de amantes para receber delas o que não recebem das esposas justamente por causa da sobrecarga que eles lhes impuseram. Não é uma grande contradição tudo isso?

Para quem está de fora e se pauta pelos valores do mundo, é uma família bonita de se ver: homem provedor que dedica quase todo seu tempo trabalhando pra sustentar a família; mulher submissa que, numa espécie de sacerdócio, se anula em prol do marido e dos filhos, suportando sozinha todas as dificuldades; filhos bem vestidos, bem alimentados, que estudam em bons colégios e vão à igreja aos domingos com os pais. Tudo no seu lugar, não? Não. Por dentro, a estrutura está sendo corroída e uma hora vai desabar, para o espanto de todos ao redor. Quantas vezes você já viu esse filme na sua igreja?

Estar casada não significa estar acompanhada. Se você casou e ainda assim se sente só, é possível que não viva um casamento de fato. A igreja muitas vezes nos ensina a pensar que é assim mesmo, casamento é difícil e tem que ter muita oração. Sim, casamento é difícil, mas não porque temos que nos submeter a uma relação que nos faz mal. É difícil porque temos que aprender a abdicar o nosso ego e esse é um desafio para ambos os cônjuges. Se o seu cônjuge não quer abrir mão de nada e não está sensível às suas necessidades, tem algo de muito errado aí. Talvez ele tenha casado para atender aos interesses “sociais” de família burguesa, mas casamento é muito mais profundo que formar uma família bonita pra postar foto nas redes sociais.

O propósito de Deus é diametralmente oposto aos propósitos mundanos: Ele criou o casamento para que duas pessoas possam se fortalecer e se ajudar mutuamente, sem hierarquia, desfrutando de bons e maus momentos (porque a vida da gente é feita de bons e maus momentos). Na perfeição do plano divino, é melhor serem dois do que um porque têm melhor recompensa do seu trabalho, porque se um cair o outro levanta, se dormirem juntos se aquecerão e se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão (Ec. 4:9-12).

Um casamento em que ambos estão dispostos a ceder pelo bem estar do outro, em que há respeito, diálogo e amizade, produzirá naturalmente os bons frutos, que poderão ser vistos na vida tanto do marido quanto da esposa e dos filhos. Não há atalhos, o caminho é difícil mesmo. Mas com Deus no centro, todos os fardos ficam leves e a companhia do cônjuge é, sim, a solução perfeita para a solidão. Não caiamos na armadilha das ilusões deste mundo: casamento não é um meio para conseguir respeito, credibilidade, dinheiro ou posição social, tampouco é uma forma de esconder quem você realmente é. Casamento é plano divino, tem objetivos mais profundos do que os valores deste mundo e ninguém deturpa um plano divino sem pagar um preço.

Este texto não é para amedrontar nem ameaçar ninguém, mas para encorajar você, que vai entrar ou que já vive num casamento de solidão, a tomar uma atitude para reverter esse quadro. Deus não deseja ver ninguém aprisionado numa relação de fachada, por isso, busque dEle os propósitos que Ele tem pra sua vida.

1 Comentário

  1. Maria Betânia Teixeira de Souza disse:

    Excelente texto ! Parabéns

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