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Cadê o pai no dia dos pais?

Eu nunca fiz um texto aqui pra falar sobre o dia dos pais porque acho que a maioria deles desempenha um papel tão pífio que nem merece homenagens. Mas ultimamente tenho pensado que a gente precisa falar sobre isso, sim, pra ajudar a repensar a paternidade no Brasil e despertar a consciência das novas gerações. Então vamos lá.

Enquanto a publicidade mostra pais dedicados e cuidadosos recebendo presentes dos seus filhos gratos e cheios de amor, a realidade do país é bem diferente. Uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça mostrou que temos 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento. Como essa pesquisa foi realizada em 2013 e só analisou as crianças matriculadas no sistema educacional brasileiro, podemos dizer que esse número é bem maior se considerarmos os adultos sem pai e também aqueles que foram registrados, mas sofreram abandono afetivo. Em 2017, o Ipea mostrou que 40,4% dos lares são chefiados por mães-solo e o IBGE apontou que, entre as pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, esse número sobe para 56,9%. Onde está o pai em quase metade dos lares brasileiros e em mais da metade dos lares de pessoas muito pobres? Essas famílias têm motivo pra comemorar?


 

Uma cultura cruel

 


Não tem como falar de ausência paterna e não falar de uma cultura machista que determina papéis de gênero para homens e mulheres. Uma cultura que atribuiu à mulher o papel do cuidado e do afeto, que colocou em nossos ombros a obrigação de ser mães e de assumir sozinhas a educação dos nossos filhos e os cuidados com o lar. Uma cultura que deixou para o homem a obrigação de ser o provedor da casa, aquele que trabalha para sustentar a família e que também é autoridade sobre ela (autoridade que muitas vezes se resume ao papel de repreensão e punição). Essa divisão de trabalho compulsória, por si só, já contribuiu para formar várias gerações que não desenvolveram muito bem uma relação de afetividade com seus pais, ao mesmo tempo em que desenvolveram com suas mães uma relação pautada na idealização e, portanto, cheia de cobranças em torno da “mãe ideal”.

A grande ironia é que essa mesma cultura que estabeleceu os papeis de cada um na família não tolera uma mãe que não corresponda aos ideais de maternidade perfeita, mas é excessivamente compreensiva diante de um pai que não cumpre sua parte no “contrato” e abandona os filhos à própria sorte. Com isso, cabe perguntar: a quem beneficia esse modelo de “família tradicional” altamente falho?

O dia dos pais é uma ótima ocasião para se pensar sobre o quão patética é essa imagem paterna que foi construída na cultura brasileira, mas que em nada condiz com a realidade: no discurso, uma figura revestida de autoridade e importância, digna de respeito. Na prática, um ser quase invisível, omisso, apático, com pouca ou nenhuma influência sobre seus filhos. Digo isso não apenas considerando os números já citados, mas também a quantidade de lares em que os pais estão presentes fisicamente, mas ausentes das responsabilidades e atribuições paternas – algo que dificilmente uma pesquisa conseguirá quantificar. O machismo, sempre indulgente com os homens, permite que eles ocupem esse lugar sem culpas e sem que isso afete outras áreas de sua vida, como a profissional e a religiosa. Criamos, assim, uma nação de pais irresponsáveis, que nunca poderão dimensionar o tamanho dos prejuízos (financeiros e emocionais) que sua atitude negligente gerou na vida de outras pessoas.

É importante dizer que paternidade não é registrar o filho e pagar pensão. Obviamente, a parte material é essencial, mas ser pai vai muito além disso e envolve presença, cuidado, diálogo, acompanhamento cotidiano. Ao deixar a parte afetiva exclusivamente a cargo das mães, o machismo tirou dos pais momentos únicos de convivência e lhes privou de coisas muito valiosas que o dinheiro não compra: a admiração, a relação de companheirismo e a confiança dos filhos. Quantas pessoas podem dizer que admiram seu pai e mantêm com ele uma relação de amizade?

Eu sei que muitos homens conseguiram superar esse modelo medíocre e deficiente e exerceram / exercem sua paternidade de forma exemplar, mas infelizmente eles não são o retrato da maioria. Espero que as discussões que estão sendo feitas de forma cada vez mais ampliada sobre machismo e privilégios masculinos, bem como as cobranças junto aos poderes públicos, possam ajudar a modificar os papéis dentro da família brasileira e, consequentemente, a ideia de paternidade. Já tenho visto as gerações mais novas com um outro olhar sobre essa questão e conheço alguns pais que tentam fazer diferente na criação dos seus filhos. Que essa seja uma tendência crescente, para o bem das crianças, das mães sobrecarregadas e também para o bem dos pais, que vão poder descobrir as delícias e recompensas da paternidade responsável. A sociedade inteira ganha com famílias bem estruturadas e conscientes do seu papel.

Pra finalizar, quero desejar um feliz dia dos pais a todos os que são dignos de carregar esse título. Que seus exemplos se multipliquem em nossa sociedade e que possam colher os bons frutos que essa relação traz. Para aquelas e aqueles que não têm boa referência de pai, que vocês possam ressignificar essa experiência e fazer diferente com seus filhos, dando-lhes o que não tiveram. E que um dia tenhamos um retrato bem melhor da paternidade no nosso país, de forma que a gente possa comemorar o dia dos pais com a certeza de que o abandono paterno não é mais uma regra, e sim a exceção.


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