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Assédio nas ruas: quando isso vai acabar?

São muitas as tentativas de nos fazer acreditar que ouvir cantadas na rua é bom, que massageia o ego e levanta nossa auto-estima. Mas a verdade é que ouvir supostos “elogios” de pessoas que você nunca viu na vida está longe de ser um afago para o ego.

Só quem passa por isso cotidianamente sabe o quanto é desagradável andar na rua e ouvir um “gostosa!”, “nossa senhora!”, “ê, lá em casa!” e por aí vai, sem falar nas grosserias e palavras de baixo calão que também são muito frequentes. Mas o pior de tudo é que esse tipo de comportamento traz consequências igualmente desagradáveis para o comportamento sexual das mulheres. Primeiro porque há um discurso dominante que diz que só ouve esse tipo de coisa a mulher que usa roupas provocantes, o que nos faz sentir culpadas quando na verdade somos vítimas. Segundo porque leva as mulheres, desde muito cedo, a ter seus primeiros contatos com o universo sexual de uma forma repulsiva e desrespeitosa, o que pode muitas vezes deixá-las com a falsa impressão de que este é o comportamento normal do homem e levá-las a construir toda uma trajetória sexual em cima desse estereótipo.

Quero reforçar aqui o que muitas mulheres já vêm dizendo, mas que ainda precisa ser repetido milhares de vezes: a culpa não é nossa. Não importa a roupa que você veste, não importa a forma como você anda na rua, nem a maquiagem que esteja usando. Definitivamente, não é a sua aparência que provoca isso. É a ideia machista dominante de que o corpo da mulher é um objeto que está disponível para ser “apreciado”, julgado e usado ao bel prazer do homem. Não importa se isso é ofensivo para ela. Não importa o que ela acha ou sente. Eles se acham no direito de dizer o que pensam sobre nós e sobre o nosso corpo de uma forma extremamente grosseira e desrespeitosa. Isso nos fere, envergonha, provoca marcas. Isso é violência e tem que ser combatida.

É triste pensar que muitas vezes nós começamos a ouvir essas coisas ainda na infância, pois além da cultura do estupro temos também no Brasil a cultura da pedofilia. Desde os 10 anos (sim, 10 anos!) eu ouço nas ruas, de homens completamente desconhecidos e de todas as idades, as piores coisas que uma criança (e, posteriormente, mulher) poderia ouvir e que eu não tenho nem coragem de reproduzir aqui. Cresci alimentando uma raiva imensurável desse tipo de comportamento e acreditando que todos os homens eram assim, o que me fez desenvolver certa repulsa ao sexo masculino, um misto de raiva e nojo, e eu levei muito tempo para perceber que esse comportamento NÃO é coisa de homem. Claro que esse trauma foi levado para os meus relacionamentos. Será que eu sou a única? Com certeza não.

Já ouvi de alguns homens com quem conversei sobre isso: “Ah, mas você está falando de uma cantada grosseira, nem toda cantada é assim. Tem a cantada elogiosa, que exalta a mulher…”. Mas quem disse que a gente precisa ser exaltada e elogiada por desconhecidos na rua? Quem disse que a nossa auto-estima está nas mãos de homens que nunca vimos? E quem me garante que aquele mesmo homem que hoje diz “linda!” amanhã não terá evoluído para o “gostosa!” e depois para as palavras baixas que se costuma dizer por aí? Por isso, homens, se vocês querem tanto elogiar uma mulher (de forma respeitosa), elogiem as mulheres com quem vocês convivem – mãe, irmã, amiga… . As desconhecidas não precisam do seu elogio e ele não vai fazer a menor diferença na vida delas.

As pessoas precisam entender que o nosso corpo e a nossa beleza não são de domínio público. E se elas não querem entender, precisamos ser incisivas e firmes em nossas posturas para demonstrar isso. Mas o que fazer quando um homem te diz uma grosseria na rua? Sinceramente, já pensei muito sobre isso e não consigo encontrar uma solução imediata. Se eu procurar a polícia, certamente ele não será preso nem sequer punido. Se eu parar para bater boca, pode ser arriscado. Se eu xingar de volta, estarei me igualando a ele. Confesso que já tentei várias formas de dar um “troco”, mas me deparo sempre com a impunidade. Porém cheguei a um ponto em que não suporto mais ouvir calada, então decidi gritar. Toda vez que um cara me diz algo impublicável na rua, eu grito, chamo a atenção, constranjo, mostro para todos em volta a canalhice daquele ser. Talvez isso o intimide e o faça pensar duas vezes antes de falar outra besteira para outra mulher. Mas eu sei também que coisas desse tipo só terão fim quando a nossa cultura mudar e é por isso que é importante a militância nas relações interpessoais. Eu não posso esclarecer o mundo, mas eu posso esclarecer meus colegas de trabalho, meus amigos, meus parentes. Posso deixar claro para eles quando um comentário desrespeitoso em tom de “elogio” me ofende. Posso colocar limites, não alimentar conversas machistas e misóginas, posso questionar e, principalmente, posso educar meus filhos de uma forma diferente, para que eles vejam as mulheres como seres humanos que merecem respeito e não reproduzam comportamentos que as depreciem. É um trabalho de formiguinha, é verdade. Mas pode tomar proporções inimagináveis no nosso dia-a-dia, afinal, o pessoal é político. Esse é o primeiro passo para uma mudança maior, que leva a ações na Política, na Cultura, no Direito. É hora de nos posicionar sobre isso e cobrar, exigir mesmo, uma mudança de atitude da sociedade. Nossas filhas não merecem passar pelo que temos passado nos dias de hoje.

*A imagem que ilustra esse texto faz parte da campanha Chega de fiu-fiu, criada pela ONG Think Olga. Vale a pena conhecer e espalhar essa ideia.

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