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Se temos tantas mulheres preparadas em todas as áreas, porque ainda somos tão poucas nas posições de liderança e poder?

Um estudo divulgado pelo site Politize! revelou que, no Brasil, apesar de termos uma lei que diz que 30% das candidaturas em eleições legislativas devem ser de mulheres, ocupamos a 154ª posição quando se trata de representação feminina em parlamentos, num ranking de 193 países. Ainda segundo o estudo, foi detectado que o eleitorado brasileiro não vota em mulheres e que há indícios de que os partidos boicotem a lei da representatividade inscrevendo candidatas que não vão concorrer somente para cumprir a cota (saiu uma matéria sobre o assunto aqui). O resultado disso é o baixíssimo número de mulheres nas câmaras municipais, estaduais e no congresso nacional, o que significa que temos poucas pessoas para representar os nossos interesses nas esferas de poder.

Que o patriarcado investe todos os seus esforços para limitar o nosso acesso ao poder, isso é evidente. Que existe uma cultura machista que leva a maioria dos eleitores a não votar em mulheres por achar que não temos competência para representá-los é algo que também é óbvio. Mas o que muitas vezes passa batido é que toda essa estrutura de repressão e exclusão mexeu com a forma como nos enxergamos e gerou em muitas de nós o medo do poder. De tanto falarem que não temos habilidade para exercê-lo, acabamos por internalizar isso e frequentemente até criamos uma certa aversão, receando reproduzir os mesmos comportamentos dos nossos opressores.

Há pouco tempo li o livro Fogo com Fogo, de Naomi Wolf, no qual ela traz de forma reveladora o poder que as mulheres têm para provocar mudanças significativas na sociedade e o quanto isso é subestimado por nós mesmas. Há uma espécie de imaginário coletivo feminino que acha que, se somos oprimidas pelo poder, não podemos fazer uso dele para mudar esse cenário, quando na verdade é o contrário: é assumindo o poder que teremos força e legitimidade para reverter nossa situação de desvantagem. E quando ela fala de poder, não é apenas o político, apesar desse ser de fundamental importância. É também o poder financeiro, o poder de influenciar opiniões, o poder de consumo, o poder do voto e diversos outros poderes que temos e exercemos em nosso dia a dia, mas que ainda não conseguimos articulá-los de modo a nos beneficiar. E se você acha que é necessário ser uma mulher rica e bem sucedida para ter esses poderes, está enganada. Uma simples dona de casa geralmente não mensura o poder que ela tem no consumo da sua família, nas opiniões e escolhas dos seus filhos e marido. Isso é capital simbólico que pode ser usado de forma estratégica para reivindicar direitos e garantir o nosso espaço.

Já pensou se todas as mulheres que consomem produtos de limpeza passassem a comprar apenas das marcas que têm compromisso em garantir paridade entre os sexos em seu quadro de funcionários? E se todas as mulheres que fazem caridade, com frequência ou não, independente do valor, resolvessem ajudar apenas as instituições que comprovam que seus serviços são prestados de forma igualitária a homens e mulheres? Já pensou se todas as mulheres que votam se comprometessem a votar em outras mulheres? E se decidíssemos que, estando em postos de liderança, iríamos nos cercar de mulheres competentes e ajudar a preparar outras mulheres para também assumir esses postos? Essas são algumas das possibilidades que a autora mostrou no livro e que me deixaram bastante impactada de saber o quanto de poder nós temos e muitas vezes não usamos simplesmente por desconhecê-lo ou não valorizá-lo. Precisamos ser mais combativas e estratégicas no uso dele, sem dúvida.

Mas o mais importante disso tudo é que percamos o medo do poder. Não é vergonha alguma ser uma mulher rica, uma mulher bem sucedida, uma mulher na política, uma mulher líder na sua comunidade. Vamos acabar com essa ideia de que o poder é para pessoas ruins e manipuladoras (se elas estão ocupando esses espaços, é porque as pessoas boas estão se omitindo). Tampouco podemos continuar achando que estar em posição de poder significa necessariamente lançar mão de recursos duvidosos para alcançar os objetivos – é possível exercê-lo de forma honesta, legal e justa. 

Para conseguirmos avançar na conquista de direitos, precisamos, sim, estar preparadas para assumir o poder, em qualquer que seja a esfera (doméstica, empresarial, comunitária e pública). Ninguém vai brigar pelos nossos interesses como nós mesmas, portanto, vamos parar de terceirizar nossa participação, principalmente na política. Vamos assumir nossos lugares e fazê-lo da melhor forma possível pelo bem de todas. Um excelente exercício para começar é a escolha do seu voto: já pensou em quem você vai votar neste ano de eleição?

Comece hoje a exercer com sabedoria o poder que você tem.

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