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Abuso sexual infantil: até onde você se importa?

Essa semana uma notícia causou a indignação de muita gente nas redes sociais: uma criança de 10 anos pulou da janela do primeiro andar para fugir do estupro do pai e se arrastou até a casa do vizinho para pedir ajuda. 

Como ler uma notícia dessas e não se sentir tomado pela raiva e pela vontade de fazer justiça? É impossível não se indignar com o fato de existirem adultos que abusam, estupram e sentem prazer com uma criança, um ser totalmente vulnerável e indefeso. Mas a questão principal que quero tratar nesse texto é: até onde vai a sua indignação? Ela se limita a um esbravejar diante do veículo que noticia o caso? A um discurso irado perante os familiares ou colegas de trabalho? O que podemos fazer, na prática, para acabar com esse tipo de crime e proteger nossas crianças?

Esse não é um problema simples de resolver, pois envolve machismo, valores altamente deturpados, violência, crime, falta de educação e, sim, saúde pública (segundo a Organização Mundial de Saúde, a pedofilia é um transtorno psicológico, portanto, uma doença*). Mas uma das formas de combate ao abuso sexual e estupro infanto-juvenil tem sido duramente criticada e rejeitada por uma parcela significativa dos brasileiros, especialmente os que se consideram “cidadãos de bem”, cristãos, defensores da moral e dos bons costumes: a educação sexual nas escolas.

Vivemos num país onde ser criança é muito perigoso e mantê-las dentro de casa está longe de garantir que estejam protegidas do mal. No Brasil são recebidas, em média, cerca de 50 denúncias por dia de crimes sexuais contra crianças e adolescentes. A maior parte das vítimas são meninas, mas os meninos também estão no alvo dos abusadores / agressores. Segundo o Ministério da Saúde, 70% desses casos acontecem dentro de casa, ou seja, os crimes são praticados pelos pais, avôs, tios, irmãos ou algum parente da vítima. Por esse motivo, a educação sexual nas escolas é tão importante: ela garante que a criança e o adolescente tomem conhecimento das práticas abusivas e violentas contra o seu corpo, ensina a diferença entre uma manifestação de carinho e um abuso, orienta sobre formas de se defender e denunciar – tudo de forma didática e adequada para cada faixa etária. Com isso, a criança deixa de depender exclusivamente da família para ter essas informações, já que está comprovado que na maior parte dos casos o abusador está justamente no seio familiar.

 

Não dá pra não falar 

 

Educação sexual, ao contrário do que dizem os conservadores mal informados, não é para estimular a criança a iniciar precocemente sua vida sexual, mas para ensinar de forma correta e útil o que a televisão, a internet e a sociedade de um modo geral já ensinam, só que de forma incorreta e inútil. Quem pensa que impedindo a escola de falar sobre sexo com seus filhos vai conseguir blindá-los desse tipo de informação, está muito enganado. Vivemos numa cultura altamente erotizada, onde o sexo está por toda parte: nas músicas, nas novelas, nos canais aparentemente inocentes do Youtube, nos outdoors da cidade, na moda… não há como fugir disso nem isolar as crianças numa bolha para que essa cultura hipersexualizada e doente não as afete. Então o que é melhor: que elas aprendam o que é correto, de maneira adequada e com a ajuda de profissionais capacitados ou que sejam bombardeadas de informações erradas, desprovidas de valores e que chegam de todas as formas sem respeitar a faixa etária? Será que é melhor deixá-las expostas ao acaso e permitir que desenvolvam um conceito equivocado sobre seu próprio corpo e sua sexualidade?

Quanto aos adolescentes, é preciso aceitar os fatos: eles estão iniciando sua vida sexual cada vez mais cedo, quer queiramos ou não, quer tenham tido educação sexual ou não. Uma pesquisa feita pela USP em 2017 mostrou que no Brasil a iniciação sexual se dá entre os 13 e os 17 anos e que o uso de preservativos é muito baixo entre esses jovens. É uma população que está sexualmente ativa, mas muito exposta aos riscos de DSTs e gravidez indesejada. Será que se proibirmos a educação sexual nas escolas esses números vão melhorar? Certamente não.

Precisamos entender de uma vez por todas que a informação é a maior arma pra combater tanto a prática repugnante dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes quanto a exposição aos riscos de DSTs e gravidez não planejada.

“A orientação sexual deve ser uma responsabilidade da família”, dizem alguns. Mas quantas famílias você conhece que conversam sobre isso de forma honesta e aberta? Paradoxalmente, sexo ainda é tabu, principalmente entre pais e filhos. E se a gente considerar que a maior parte dos abusos / estupros acontecem dentro de casa, é mais um motivo para não deixar essa responsabilidade exclusivamente com a família (a não ser que queiramos os agressores ensinando às suas vítimas).

 

Falso moralismo

 

É difícil acreditar que mesmo com dados que comprovam a vulnerabilidade das nossas crianças e adolescentes, mesmo com tantas campanhas de conscientização e denúncia, com a imprensa e os meios de comunicação alertando e noticiando casos todos os dias, ainda tenha gente preocupada com o fato de não querer que seu filho aprenda “indecências” na escola. Precisamos ter mais cuidado ao reproduzir discursos aparentemente santos e revestidos de uma certa religiosidade, pois nem sempre as coisas são como parecem ser. Será que a preocupação de quem sustenta esse argumento publicamente é realmente defender a pureza das crianças ou existe uma má intenção por trás dessa defesa? A quem interessa ter crianças que não sabem quando um adulto passa dos limites em relação ao seu corpo? Escola nunca foi lugar de aprender indecência, ali existem profissionais formados e capacitados – mais até do que muitos pais e mães. E o fato dela oferecer orientação sexual não impede que a família também o faça – aliás, o ideal é que haja essa parceria e que a família assuma sua parcela de responsabilidade. O discurso da escola não pode e não deve ser único.

Portanto, não é hora pra falso moralismo cristão. Homens (e mulheres) de bem também abusam de crianças. A igreja está cheia de abusadores / estupradores e muitos deles estão na liderança, pregando, orando, exercendo a diaconia, fazendo acompanhamento de casais… alguns casos vêm à tona, mas outros nunca foram ou nunca serão descobertos. Vamos parar com essa cegueira! A Bíblia diz que “não há um justo, nenhum sequer” (Rm 3:10). Não podemos ser coniventes com um crime usando o nome de Deus como justificativa. 

Refaço agora a pergunta do início do texto: até onde vai a sua indignação em relação aos crimes sexuais contra crianças e adolescentes? Se você se revolta ao ver as notícias, mas se recusa a aceitar que elas sejam orientadas por profissionais para que possam se defender, sinto dizer, mas você é conivente e sua indignação é hipócrita. Educação é sempre o melhor caminho. E os pais nem sempre são os melhores educadores. Que o digam as estatísticas.






*A pedofilia é classificada como doença pela OMS e não constitui um crime. Portanto, o pedófilo não é um criminoso, mas sim um portador dessa doença, uma pessoa que tem o transtorno de sentir atração sexual por crianças e adolescentes. No entanto, se o pedófilo põe em prática os seus desejos, aí sim, está cometendo crime. É importante esclarecer que nem todo pedófilo é criminoso (apenas os que põem em prática os desejos decorrentes do seu distúrbio) e nem todo criminoso que abusa e estupra crianças é um pedófilo. 



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