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A tia de Jesus

Jesus tinha mulheres em seu grupo de discípulos. Elas viajavam com ele, e algumas delas financiavam seu ministério. Jesus deliberadamente moldava seus ensinamentos a fim de comunicar a sua mensagem com o mesmo o poder tanto para as mulheres quanto para os homens.

– Kenneth E. Bailey

 

 

 

Por acaso você já ouviu alguém falar sobre a tia de Jesus? É muito difícil alguém escrever ou pregar sobre isso, até porque não temos informação o suficiente dos parentes de Jesus – apenas textos complicados de difícil interpretação. Por exemplo, Mateus 13:55 cita os nomes de Tiago, José Simão e Judas como seus irmãos. Também em Marcos 3:20-21,31-35 encontramos menção das irmãs de Jesus. O problema é que a palavra empregada nos evangelhos para irmãos é Adelfós (plural adelfoi), que tanto pode significar filho da mesma mãe quanto qualquer grau de afetividade ou parentesco, como por exemplo, um primo. Também não é possível dizer que Jesus foi primo de segundo grau de João Batista, pois a tradução de Lucas 1:36 para a palavra grega Sugenes significa parenta, isto é, o termo é muito mais abrangente e seria um erro traduzir apenas como prima.

O interessante é que, depois de 2 mil anos de história do cristianismo, continuamos tendo poucas informações sobre a vida Jesus de Nazaré, porém isso não nos desestimula a continuar pesquisando sobre a vida deste magnífico personagem. Entretanto, mesmo não tendo informações suficientes sobre a família de Jesus, é possível arriscar a afirmação de que Ele teve uma tia? Se teve, quem foi ela? Existe algum texto canônico no qual podemos fundamentar esta informação?

João 19:25 declara: Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, mulher de Clopas e Maria Madalena”.

Não é fácil comentar este texto. Existe uma pluralidade de problemas que se apresentam no momento em que queremos compreendê-lo e um deles está na própria tradução. Como observamos, a palavra grega para irmão ou irmã é ampla, não pode ser limitada a apenas irmãos(ãs) nascidos(as) de mesmo pai e mãe. O outro problema se encontra na própria maneira como o texto foi escrito, pois está confuso, é difícil conhecer se João menciona três ou quatro mulheres. A mulher de Cleopas poderia ser a irmã da mãe de Jesus ou não. No entanto, se observarmos em Marcos 15:40 e Mateus 27:55, podemos considerar que a irmã de Maria, mãe de Jesus, era uma mulher por nome de Salomé.

E agora, o que faremos? Salomé é a mulher deste texto de João, tia de Jesus? Talvez Maria tenha tido várias irmãs, não? O texto de João 19:25 não cita o nome da irmã de Maria, apenas “a irmã dela”. Como o termo irmã e irmão era amplo na sociedade israelita, a interpretação se torna complicada para um tradutor cauteloso. E agora?

Estou aberto às críticas, mas acredito fielmente que a palavra irmã em João 19:25 pode ser traduzida como irmã de Maria, isto é, filha do mesmo pai e mãe. Nessa perspectiva, a mulher que estava ao lado de Maria de Nazaré, próxima da cruz, era a tia de Jesus. 

 

Uma tia próxima da cruz

 

Tanto em Marcos como em Mateus, as mulheres que subiram até o calvário ficaram observando de longe, mas em João acontece o contrário, elas estão próximas da cruz. São mulheres marginalizadas, que parecem invisíveis, somente são vistas quando se encostam em Jesus. Tirando Maria, mãe de Jesus, e Maria Madalena, que são apresentada nos evangelhos (poucas vezes) e que de certa maneira podemos concluir alguma coisa sobre suas personalidades, das outras nada sabemos, são praticamente invisíveis na história. Nada conhecemos sobre essas mulheres que acompanhavam o movimento de Jesus (por exemplo: não há informação sobre a tia de Jesus).  Mas isso não nos desanima, é preciso aprender a ler o texto nas entrelinhas.

A mãe, a tia e as outras mulheres não arredaram os pés da cruz, foram com Jesus até o “final”. O que deveria ter passado na cabeça de uma mulher vendo o seu sobrinho sendo crucificado e vendo a sua irmã aos prantos? Muita coisa. Com certeza a tia de Jesus largou seus afazeres diários, seus compromissos como esposa e mãe, e foi consolar sua irmã Maria. Ademais, foi preciso muita coragem para estar próxima da cruz de Jesus. Inovi Richter Reimer, citando um fragmento do historiador romano Tácido sobre a execução em crucificação, afirma: “Ali havia uma enorme montanha de defuntos, de ambos os sexos, de todas as idades, pessoas de origem nobre e humilde. Não eram permitidos a parentes e amigos se aproximarem-se para chorar seus mortos (…). Os guardas estavam postados em todos os lados”[1].

Se o historiador Tácido estiver correto, conforme apresentado por Reimer, podemos dizer que essas mulheres correram um grande risco em ir até a crucificação de Jesus. E ainda mais: a crucificação de Jesus foi vista por muitos como exemplo de punição daqueles que perturbam a ordem pública. Também não estaríamos exagerando ao dizer que existiram fatores políticos que influenciaram a morte de Jesus, basta ler o que foi escrito na tábua colocada na parte superior da cruz ou provavelmente no pescoço dele: “Rei dos judeus”. Tudo isso vislumbra que o ambiente e o clima da crucificação de Jesus eram extremamente perigosos para qualquer simpatizante de seu grupo. A prova disso foi a postura de seus discípulos, eles se esconderam, o tempo fechou. Mas lá estavam as mulheres, elas escolheram não se ausentar daquele ambiente perigoso, fincaram seus pés no chão e mostraram o verdadeiro sentido da amizade e do cuidado. Quando todos foram, elas ousaram ficar!

          Aquelas mulheres próximas da cruz, juntas com Maria, mãe de Jesus, fizeram daquele momento custoso o verdadeiro sentido do cristianismo, que apareceria anos após: Jesus, cruz e companheirismo. Era o momento de chorar, de abraçar e confortar. Maria poderia estar aos prantos, mas ao lado dela estavam suas verdadeiras amigas que foram até o fim.  Aprendamos com elas!

 

 

[1]Recordar, transmitir, actuar. Mujeres em los comienzosdel cristianismo. Revista de Interpretación Biblica Latinoamericana, n.22, 1995 p.50

 

 

Moisés Alves tem curso livre em Teologia pelo Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. É graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pós-graduado em Teologia e Interpretação Bíblica pela Faculdade Batista do Paraná.   

 

 

 

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