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A realização da mulher é ser mãe…?

A sociedade machista adora essa frase! Como alguém pode duvidar que a mulher nasceu pra gerar uma vida, né? E dentro da igreja evangélica isso vira quase que um 12º mandamento (porque o 11º mandamento pra mulher crente é casar, claro!).

Existem muitos mitos em torno da mulher e todos eles são criados, obviamente, dentro de um contexto machista que visa nos enquadrar dentro de uma forma única, pois assim é mais fácil nos dominar. Mulher tem que ser meiga, tem que ser magra, tem que ser bonita, tem que gostar de maquiagem, de sapatos, saber cozinhar e… tem que ser mãe! E gostar de ser mãe. E sonhar com isso a vida toda enquanto não é mãe.

Pode parecer absurdo para alguns, mas NÃO, nem toda mulher quer ser mãe. Maternidade não é um dom de todas, assim como o casamento também não é. A nossa cultura nos impõem desde a vida fetal um estereótipo de mulher ao qual devemos seguir como se fosse uma cartilha, mas a verdade é que muitas que seguem essa cartilha não se sentem felizes simplesmente porque não estão sendo contempladas em seus gostos pessoais. Não tenho dúvidas de que existem mulheres que tiveram filhos apenas para corresponder às expectativas alheias, e não às próprias. E quem paga o preço disso? Os filhos, claro.

A psicóloga cristã Isabelle Ludovico, autora do livro O Resgate do Feminino, explica aqui e aqui de uma forma brilhante que somos chamadas a ser férteis, mas não somente no sentido literal, de gestar e parir. Nós podemos ser férteis também no sentido de gerar filhos que não são nossos, cuidando, zelando, acolhendo ou orientando outras pessoas (como fazem as mães); e podemos também ser férteis de ideias, de projetos, de serviços, contribuindo para a construção de um mundo melhor, para uma aplicação prática do Evangelho. A nossa fertilidade não está apenas em nosso ventre. E como é libertador saber disso!

Num mundo machista como o nosso, é muito mais fácil ceder às pressões de ser mãe do que sustentar a própria vontade de não ter filhos, na contramão de tudo o que se pensa sobre nós. As mulheres que eu tive a oportunidade de ouvir e que não desejavam ser mães tinham justificativas muito pessoais e válidas. Todas elas tinham em comum o fato de saberem da importância da maternidade e da responsabilidade que ela envolve e, por não se acharem aptas para isso, preferiram não escolher esse caminho. Acho que se todas as mulheres que hoje são mães parassem antes para pensar honestamente no tamanho da responsabilidade que teriam que assumir com seus futuros filhos, muitas não teriam engravidado e assim seriam evitados diversos casos de filhos mal amados, abandonados dentro do próprio lar, que acabam se tornando adultos inseguros, carentes e problemáticos.

Ser mãe dá trabalho e, infelizmente, nem todas as mulheres sabem disso porque não são mães, apenas pariram um filho. E isso não é culpa delas, mas sim de uma cultura que desconsidera as nossas diferenças e impõe que todas devem ter filhos, não importando o seu desejo pessoal e não importando se todas têm condições materiais, emocionais e físicas para isso. Ser mãe é uma bênção de Deus, mas não é uma obrigação. É um dom e uma escolha.

Portanto, se uma mulher considera que não vai conseguir se doar da forma como acha ideal para a maternidade; se não quer assumir essa responsabilidade por ter um estilo de vida que ela julgue incompatível; se prefere se dedicar única e exclusivamente à sua carreira; se não gosta de crianças; se não pode ter filhos (biologicamente falando) ou seja lá qual for o motivo que a leve a não ser mãe, ela deve ser respeitada por isso, nunca inferiorizada ou menosprezada. Não há maldição para a mulher que não quer ou não pode ter filhos. Deus não vai puní-la e tampouco ela será menos mulher por isso. Esse tipo de discurso já deveria ter perdido espaço ao menos dentro da igreja, pois Jesus só nos deu exemplos de amor, compreensão, tolerância e respeito. É isso que devemos praticar.

Nossas escolhas devem ser feitas por nós mesmas, especialmente aquelas que são para uma vida inteira ou que envolvem outras vidas – como o casamento e a maternidade. Ninguém tem o direito de nos julgar ou pressionar pelas escolhas que fazemos ou pelas circunstâncias que vivemos, pois nossa prestação de contas é com Deus e Ele nos conhece profundamente e conhece os sentimentos do nosso coração. Não podemos mais permitir que a sociedade escolha por nós e nos imponha regras que nem sempre nos cabem. Também não podemos permitir que sejamos desvalorizadas por não nos enquadrarmos. Ser mãe é dom divino, sem dúvida, mas não é apenas gerar filhos. Envolve uma série de questões e responsabilidades que nem todas querem ou podem assumir e cabe a cada uma pesar isso e tomar sua decisão.

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