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A igreja e os homossexuais: alguém tem que ceder

Este texto não é para dissertar sobre o fato de a homossexualidade ser pecado ou não. Quero apenas trazer uma reflexão sobre a forma como temos lidado com esse tema enquanto igreja – e confesso que me espanta o nosso nível de maturidade tão rasteiro para tratar de um assunto tão delicado.

Antes de mais nada, preciso dizer que temos sido bem infantis na forma como conduzimos essa questão. Primeiro porque queremos estar certos a todo custo. Segundo porque não aceitamos uma forma de viver diferente da nossa e imediatamente a classificamos de uma forma negativa. São ou não são atitudes de uma criança mimada?

Dito isto, gostaria de tocar numa ferida que todos temos, mas nenhum de nós gosta de admitir: a vaidade. O crente, de um modo geral, é vaidoso, pois acha que só ele tem a Salvação. “Pertenço ao seleto grupo dos que vão para o céu”, é o que costuma passar pelas nossas cabeças, ainda que inconscientemente. E com base nesse pensamento, deixamos a vaidade nos colocar num lugar de superioridade em relação aos não-crentes e nos permitimos julgá-los, muitas vezes até de forma explícita, apontando e proclamando soberbamente o famoso “não herdarás o reino dos céus”. Mas quem nos deu esse direito?

Na carta aos Romanos, Paulo deixa bem claro que “todos pecaram e estão afastados da glória de Deus” (Rm. 3:23). TODOS, sem exceção. E ele enfatiza essa ideia ao afirmar ainda que “ninguém é justo, nenhum sequer” (v. 10) e “todos se desviaram, todos caíram no erro” (v. 12). Logo, não temos o direito de julgar ninguém, pois também carregamos nossa bagagem de pecados. Já pensou se Deus nos julgar com a mesma severidade com que julgamos os outros? Então eu acredito que um princípio básico que deve nortear a igreja em suas discussões sobre a questão homossexual é: nós não somos melhores que eles. E parece que ainda falta muito para aprendermos essa lição tão primária.

Por professarmos a fé cristã, temos o direito de acreditar que a homossexualidade é pecado (e mais uma vez reitero que meu objetivo aqui não é entrar nesse mérito, que é bastante questionado). Mas não temos o direito de obrigar os outros a aceitarem aquilo que é uma verdade para nós por uma questão religiosa. Não temos o direito de negar dignidade de existência a pessoas que são tão humanas quanto nós, nem de ofendê-las publicamente, constrangê-las, discriminá-las, menosprezá-las e condená-las ao inferno (não esqueçamos que quem condena é somente Deus). E não adianta vir com o discurso de que a igreja ataca o pecado, mas não o pecador. A igreja ataca o pecador, sim, com a mesma hipocrisia com que os fariseus da época de Jesus atacavam a população.

“Mas os homossexuais não respeitam a igreja e nem a nossa fé!”. Já ouvi esse argumento várias vezes, mas ele está baseado em dois pressupostos errados: o primeiro é o de que toda a comunidade LGBT é desrespeitosa, o que não é verdade. Os atos de vandalismo e escárnio cometidos por alguns em relação ao espaço e aos símbolos sagrados não podem ser atribuídos a todos e não representam o pensamento da maioria (assim como a gente sabe que tem muito pastor seguido por multidões que não representa a comunidade cristã e muito menos o Evangelho). Parafraseando Nelson Rodrigues: toda generalização é burra. O segundo pressuposto errado é o de que os ataques partem da comunidade LGBT e que a igreja apenas se defende. Honestamente? Foi o cristianismo quem começou os ataques a partir do momento em que classificou a homossexualidade como pecado. Repito: não  quero aqui discutir se tal classificação é certa ou errada, mas o fato é que esse simples ensinamento abriu portas para os mais diversos discursos de ódio, discriminação e preconceito nas igrejas e não ficou restrito aos espaços cristãos – se espalhou pela sociedade e hoje é utilizado como justificativa para toda sorte agressões, partindo de religiosos ou não.

Nessa “guerra” entre cristãos e homossexuais, uma coisa é certa: todos atacam, todos revidam, mas todos erram e cometem excessos, apesar desses excessos não representarem o todo. Mas a igreja, enquanto conhecedora da Palavra, tem obrigação de fazer o que Jesus ensinou. E Ele não nos ensinou a revidar, mas disse para oferecermos a outra face (Lc 6:29). O que isso significa? Significa que temos obrigação de quebrar esse ciclo de violência e intolerância. Se queremos ser respeitados, vamos passar a respeitar primeiro. Vamos deixar a criança mimada de lado e reconhecer que nosso papel não é julgar nem condenar ninguém. A fé é individual, não deve ser imposta e muito menos utilizada para ferir os direitos do outro. O próprio Jesus nunca impôs nada, Ele bate à porta para que permitamos (ou não) a Sua entrada (Ap. 3:20). Quem somos nós para querer fazer o contrário?

Enquanto não dermos um bom testemunho, enquanto não puderem enxergar Jesus refletido em nossos atos, todo o nosso esforço de evangelização será vão. As pessoas se interessam por atitudes coerentes com discursos e, no que diz respeito à questão homossexual, não temos conseguido casar a teoria do Evangelho com a nossa prática – logo, temos fracassado em nossa missão. Como posso apresentar um Deus de amor cometendo atos de desrespeito e ódio?

Por fim, quero finalizar com um convite à reflexão e uma provocação: assim como nós, muitos homossexuais (muitos mesmo!) sentem necessidade de Deus. No entanto, ao invés de promover essa aproximação, a igreja tem promovido o afastamento e demonstrado cada vez mais que Deus não gosta e nem se importa com eles – o que não é verdade, pois Ele concede Sua graça a qualquer um que O buscar. Até quando vamos continuar fazendo essa “evangelização reversa”? Por outro lado, mesmo com a nossa intolerância, muitos homossexuais já estão frequentando as igrejas, tamanha a sua sede espiritual. Mas na maioria das vezes eles não têm coragem de se assumir, por motivos óbvios. Você já parou para pensar quantos podem estar congregando na sua igreja hoje? O que é mais eficiente: continuar ignorando e varrendo-os para debaixo do tapete ou assumir essa realidade e começar a pensar em formas de acolhê-los e ajudá-los em suas angústias, assim como fazemos com todas as outras pessoas?

6 Comentários

  1. Lucia disse:

    Concordo com seu texto no geral, mas acho que o erro da igreja, não foi de taxar o homossexualismo de pecado, mas sim, de superestimar “este pecado”, quem diz que o homossexualismo é pecado é a bíblia, assim como ela diz que mentir, roubar, fornicar(que diz respeito à heteros também! O que a igreja erra é de classificar níveis de pecado, sendo que diante de Deus, não há pecadinho, nem pegação! O mesmo “crente” que condena o homossexualismo, se acaba vendo pornografia na internet, cai de desejos pelo sexo oposto, mente, engana… Então o grande erro aqui é a hipocrisia! Pecado é pecado é pronto, então se eu me ocupar cuidando das minhas falhas, não estarei gastando tempo acusando outros!
    Sugiro pesquisarem o trabalho da Missão Avalanche, em especial a missionária Andréa Vargas, foi a Cristã que melhor abordou este tema até hoje que conheci😉

  2. Georgia disse:

    Pior do que ignorar e esconder os homossexuais, a Igreja se vangloria de “tirar essas pessoas do pecado”, convencê-las de que são, de fato, pecadoras e divulgar à comunidade que o poder de Deus é capaz de mudar a sexualidade do indivíduo, transformando-o num ex-gay. Muitas igrejas se aproveitam das angústias dessas pessoas até para obter mais seguidores da “palavra”.

  3. Excelente colaboração, Tarciane! Muito obrigada por ajudar a enriquecer a discussão com informações tão relevantes!

  4. Tarciane Machado Miranda disse:

    Melhor texto que já li sob o ponto de vista cristão abordando a homossexualidade . Existe uma outra questão também que a igreja precisa acompanhar : a abordagem fisiologica da coisa. Assim como as acoes de se alimentar, urinar ,etc, o desejo pelo mesmo sexo perpassa por uma necessidade fisiologica, que nao pode jamais ser entendida como uma escolha somente. Hoje, grande parte dos estudos científicos apontam a disfunção hormonal como um gatilho para a homossexualidade.Para mulheres lésbicas, por exemplo, mais de 80 % possuem testosterona além do normal. Fiz um trabalho sobre isso e me espantei com tal índice. Logo, ainda que julguemos como “errado”, onde entraria esse suporte fisiologico tb? Sera que seguir a palavra faria a fisiologia do corpo mudar? Eu, particularmente, acho que ciência e religião deveriam sempre andar juntas , pois Deus nos fez sábios para evoluirmos. Então, é retórico pensar na sexualidade com os mesmos instrumentos e leituras de séculos atrás.

  5. Talita Fernanda de Oliveira disse:

    Eu amo dizer que Jesus nos ensinou a amar o próximo, independente se ele seja gay, lésbica, Trans, etc. Deus ensinou o amor, e no amor não deve haver exclusões. “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI.” Se Deus, que sabe de completamente tudo que fazemos, sendo bom ou ruim, pra gente ou pro outro que acrescenta ou que diminui, mesmo assim nos ama, porque pra nós é difícil amar alguém que apenas tem uma vida, sexualidade diferente da nossa? Tudo é questão de seguir o Deus que amamos, e buscar amar como ele nos ama!

  6. Excelente reflexão, Isabela!
    Tenho acompanhado seu blog e me surpreendido a cada postagem.
    Espero poder um dia poder convidá-la para vir a nossa igreja ou até mesmo participar para uma de nossas rodas de conversa.

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