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A alegria ambivalente do carnaval

Não, este não é mais um texto doutrinador sobre o carnaval. Longe de mim querer regulamentar o que se deve fazer nesta época, até porque eu acho que cada um presta contas de si. A Bíblia deixa essa e muitas outras decisões a nosso critério quando Paulo nos ensina que “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm” (1 Co 6:12). É um convite à maturidade espiritual e ao exercício da fé racional, além de conter um recado implícito: analisem e sejam responsáveis por suas atitudes, pois ninguém deve responder por ninguém. Logo, não cabe a mim ou a qualquer pessoa dizer o que fazer, não só no carnaval, mas em muitas outras circunstâncias.

Hoje o que eu quero é trazer uma breve divagação sobre esse período festivo em nosso país.

Estamos vivendo um ano que mal começou e já foi marcado por tragédias: o rompimento da barragem de Brumadinho, o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo, as enchentes no Rio de Janeiro (prenúncio de outras que ainda estão por vir, como acontece todos os anos), e a morte trágica de um dos mais influentes jornalistas brasileiros. A impunidade escondida atrás desses fatos grita na nossa cara.

Politicamente falando, 2019 tem sido até então um ano decepcionante, marcado por escândalos envolvendo o recém-empossado presidente, seus ministros e sua família “atrapalhada” (para ficar apenas no eufemismo). A “redenção do Brasil”, tão esperada por alguns como esse novo governo, parece que está um pouco emperrada, pois até então nada de concreto e positivo foi feito pela nação: muita propaganda em torno de uma flexibilização de porte de armas (que vai beneficiar os mais abastados, claro, mas que não resolve nossos problemas com a violência), muito barulho com coisas que não mudam a vida do brasileiro (tipo meninas usam rosa e meninos usam azul), áudios vazados delatando uma polêmica vazia, que mais parece ter sido armada, e um novo MEC que se preocupa muito mais em ver estudantes cantando o hino nacional  e aclamando o governo do que tendo acesso a uma estrutura decente de ensino. Parece que a tão esperada revolução na política ainda não vem dessa vez.

Diante desse quadro altamente resumido, mas desolador, é óbvio que não temos muito o que festejar. Mas o carnaval tá aí, na porta.

O antropólogo e professor Roberto da Matta escreveu um ensaio no qual considera o carnaval como um rito de passagem, um período de entorpecimento onde os papeis e convenções sociais são invertidos e as pessoas ficam livres das amarras que as mantém durante o resto do ano. Problemas, dívidas, frustrações e rixas são esquecidos e vivemos dias de alegria esfuziante. Mas depois desse período mágico, vem a quarta-feira de cinzas e tudo volta ao seu lugar. Sim, é um momento de alegria efêmera que nos propõe uma fuga da nossa dura realidade, mas que sempre exige uma volta pra ela.

Eu sei que todos precisam de ócio e momentos de descontração na vida. Como dizem os Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Mas fico me perguntando se nesse momento específico de carnaval a nossa necessidade de diversão e arte não é estrategicamente alimentada e saciada para fins políticos: “Olha, somos o Brasil!”, “Vejam como somos felizes!”, “O povo não tem do que reclamar, eles até festejam!”. Enquanto isso, nas festas de rua o índice de violência é altíssimo: brigas, assédios sexuais, estupros, agressões contra homossexuais e mortes são abafados pela música do carnaval, geralmente um hino repetitivo e vazio que cai no esquecimento tão logo a festa acaba. Para os pobres, o carnaval é o ápice da exploração capitalista: eles são quem mais trabalham duro pra manter a folia e são quem menos recebem por isso. Ambulantes, cordeiros, policias, serviços gerais e outros segmentos se arriscam por uma mixaria. Mas para os patrões, eles trabalham no meio da festa, deveriam agradecer! Pelo menos é essa a realidade do carnaval de Salvador.

Que alegria é essa? Alegria dos ricos em seus camarotes? O poder de um discurso que vira lei e acaba sendo incorporado pela população mais pobre e vulnerável, ainda que pra ela a festa não seja a mesma? Eu sei que essa é uma visão bem pessimista do carnaval, mas não podemos ignorar esse lado. Quando teremos um carnaval que seja, de fato, uma festa pra se divertir, sem a necessidade de mascarar os nossos problemas sociais perante o mundo e perante nós mesmos? 

É preocupante pensar que nós precisamos desses dias de fuga para sobreviver à nossa dura realidade.  Aliás, é um péssimo sinal.

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