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Existem várias questões com as quais a igreja ainda não sabe lidar. Quando falei num texto anterior que há um descompasso entre igreja e mundo foi justamente porque não conseguimos discutir nem tratar assuntos que já estão sendo discutidos amplamente pela sociedade – principalmente quando eles envolvem mulheres. A verdade é que não queremos encarar de frente alguns tabus que mexem com o nosso conservadorismo e moralismo, pois temos um medo infantil de desestabilizar nossa fé. Foi pensando nisso que resolvi listar aqui quatro situações com as quais, definitivamente, não sabemos lidar (mas precisamos!):

1) Mulheres que engravidam sem casamento – Posso estar errada, mas tenho a impressão de que, nos dias de hoje, isso só é tabu nas igrejas mesmo. Não que eu ache que devemos incentivar a gravidez sem casamento, sem planejamento etc., não é isso! Acho que a igreja tem um papel importantíssimo na defesa e na orientação da família, mas temos que encarar o fato de que muitas mulheres estão, sim, engravidando sem casar pelos mais diversos motivos (um deles eu falei aqui). E o que a gente faz? Simplesmente as afasta da comunhão. Será que essa atitude tem sido uma solução ou tem gerado mais um problema? Não cabe a nós julgar as razões de quem engravida sem casar, mas sim tentar entender o contexto de cada caso e exercer a empatia. Acredito que pegar essas mulheres, que muitas vezes estão engajadas com as atividades da igreja, contribuindo bastante para o crescimento da comunidade, e simplesmente afastá-las porque “estão em pecado” me parece de uma hipocrisia sem tamanho – afinal, todos nós vivemos em pecado! E quando se trata de uma adolescente é pior ainda, pois ao afastá-la estamos empurrando para o mundão uma pessoa que precisa muito de ajuda, cuidado e orientação. Sem falar no fato de que muitas dessas mulheres afastadas não voltam mais para a comunhão da igreja, seja por vergonha de serem apontadas, seja por mágoa… Enfim, em relação a essa questão, acho que temos nos preocupado demais em tratar a consequência, e não a causa.

2) Mães solo – Neste quesito, falta discipulado, faltam atividades direcionadas, falta gente capaz de orientar… enfim, falta tato! As igrejas pensam muito nos casais, investem em ministérios de namorados, de casados, mas raramente pensam em algo direcionado para as mães solteiras. E olhe que elas são muitas! E ouvem tanta barbaridade de pessoas despreparadas…  Só pra dar exemplos, já ouvi gente pregar que filho criado sem pai não sabe o que é disciplina e que mães solteiras não devem casar de novo. Fora a culpabilização, pois elas frequentemente são tratadas como “aquelas que não tiveram sabedoria para segurar o pai dos seus filhos”. E assim vão sendo criadas uma infinidade de teologias para essas mulheres, baseadas única e exclusivamente na opinião de quem fala.

3) Mulheres que se divorciam – esta é uma situação bem semelhante à das mães solo. Quando o ex-marido não é crente ou não frequenta a mesma igreja já é um terror, mas quando o ex-marido é membro da mesma igreja, aí a coisa fica bem mais difícil! Primeiro porque todo mundo tem uma opinião pra dar, todo mundo quer se meter, muita gente quer promover a reconciliação ignorando circunstâncias e vontades… Mas o pior de tudo é que, frequentemente, as pessoas escolhem um lado para defender e não fazem questão nenhuma de esconder isso, constrangendo e muitas vezes inviabilizando a permanência de um dos cônjuges naquela comunidade (e como a gente sabe que o machismo prevalece em nosso meio, quem sofre mais com isso? Nós, claro!).

4) Homossexualidade – Gente, vamos falar aqui sinceramente? A igreja evangélica está repleta de homossexuais! Não adianta negar, não adianta esconder nem fazer de conta que não estamos vendo! Precisamos urgentemente discutir sobre isso e encontrar uma forma de lidar com eles, pois se estão ali é porque têm sede da Palavra de Deus, precisam ser alimentados e tratados em suas dores (assim como todos nós!). Fingir que não sabemos, impedí-los de assumir posições de liderança e pregar dando indiretas não está resolvendo e nós estamos afastando seres humanos da presença de Deus com tudo isso. Não sei qual é a solução e sei que a maioria das pessoas também não sabe, mas vamos começar a debater isso? Vamos construir juntos?

A lista de temas tabus para a igreja não acaba aqui, o que só revela a nossa atual incapacidade de aplicar o Evangelho na vida cotidiana. Está na hora de amadurecermos enquanto igreja, sair da superfície e começar a discutir e pensar em formas verdadeiramente cristãs de lidar com essas questões. Com certeza a simples atitude de abrir espaço para o diálogo já pode fazer uma grande diferença e irá nos aproximar daquilo que Jesus espera de nós: que sejamos cristãos de prática, e não apenas de verbo.

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