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Dia desses me peguei pensando nas diversas situações que me vejo obrigada a evitar ou nas quais tenho que agir de forma diferenciada só pelo fato de ser mulher. Resolvi listar algumas, talvez vocês se identifiquem:

 

1) Já troquei de roupa antes de sair por achar que ela poderia me causar algum tipo de constrangimento com os homens.

 

2) Não sento nas cadeiras de janela dos ônibus, pois tenho medo de quem possa sentar perto de mim. Já passei pela horrível experiência de ter um homem se masturbando ao meu lado e, de lá pra cá, nunca mais janela. Sempre corredor.

 

3) Também não sento nos bancos de ponto de ônibus nem fico parada enquanto espero. Quando um homem se masturbou ao meu lado, em pé num ponto de ônibus lotado, minha mãe me ensinou a não ficar sentada nem parada esperando ônibus. Sempre circulando, como quem não quer nada.

 

4) Quando vejo um grupinho de homens parados na rua, nunca passo pelo meio deles. Se possível, nem ao lado. Prefiro atravessar a rua e passar bem longe para não ouvir as piadinhas constrangedoras nem ver os olhares indiscretos.

 

5) Adoro batom vermelho, mas evito aparecer de boca vermelha quando começo a frequentar comunidades nas quais não sou conhecida nem conheço ninguém, pois sei que as pessoas se assustam e pensam coisas machistas e desabonadoras sobre quem usa batom vermelho (estou tentando mudar isso, mas às vezes ajo de forma inconsciente).

 

6) Já tive que trocar a minha foto de perfil no facebook para ver se parava de receber solicitações de amizade de homens desconhecidos. Coloquei uma foto com o meu marido e as solicitações, “milagrosamente”, cessaram.

 

7) Gosto muito de dançar forró, mas há muitos anos decidi que não iria mais a festas se não estivesse acompanhada de um homem (não necessariamente um namorado, podia ser amigo, primo ou até meu irmão). Tomei essa decisão porque os homens não respeitam mulher sozinha em festa dançante. A gente não tem o direito de recusar uma dança e, quando aceita, não tem o direito de recusar uma “ficada” (afinal, você está sozinha, né?). É desgastante passar uma noite inteira dizendo “não” e o que é pra ser diversão muitas vezes se torna cansativo e até ultrajante.

 

8) Já engoli seco diversas situações de assédio sexual no trabalho para não tornar o ambiente pesado e desfavorável a mim (porque “eram só brincadeirinhas, não seja tão problemática!”). Até eu conquistar meu espaço e “me assumir” como feminista, deixando claro que não concordo e não aceito determinadas brincadeiras, tive que engolir muita coisa. E ainda engulo (por questões tão complexas que só mulheres que já passaram por isso são capazes de entender). Espero e trabalho para engolir cada vez menos até chegar ao nível de tolerância zero.

 

9) Tenho sérios problemas em aceitar que homens paguem alguma coisa pra mim, mesmo que sejam amigos e mesmo que seja um chiclete. Aprendi desde nova que quando os homens pagam algo pra uma mulher, há grandes chances de querer outro algo em troca (pode até ter exagero da minha parte, mas infelizmente isso acontece muito).

 

10) Já mudei de uma academia para outra, mais próxima da minha casa, porque não suportava mais ouvir as baixarias dos homens no trajeto, pelo simples fato de eu estar usando roupa de academia.

 

11) Por falar em academia, uma vez ouvi de uma colega de treino que ela só sai pra malhar usando roupas pretas, pois o preto “esconde” mais o corpo e ela ouve menos piadinhas no caminho (essa não foi comigo, mas achei interessante listar para vocês verem a que ponto nós chegamos!).

 

Vou parar por aqui porque a lista é interminável! Mas o meu objetivo é mostrar o quanto nós somos podadas a vida toda, o quanto a gente abre mão de fazer coisas legais ou coisas que a gente queira só pelo fato de sermos mulheres. Juntando todas essas “coisinhas” nas nossas vidas, como negar o machismo? Como afirmar que o feminismo não é mais necessário? 

Com certeza muitos homens não fazem a menor ideia de que passamos por situações como estas que listei. Sabe por que? Porque pra eles é tudo tão fácil, tão natural… Eles não imaginam que, com tanta frequência, pautamos nossas decisões e nossos comportamentos em cima do nosso sexo e que muitas vezes isso abrange não só coisas complexas, mas também coisas muito simples. Parece que nós somos as intrusas, sempre. E o que é pior: a gente se acostuma com tanta restrição e com tanto malabarismo para evitar constrangimento e acaba não falando disso, pois entra na nossa rotina como algo normal. Mas temos que falar, sim, para que saibam como o machismo nos afeta, nos atrapalha, restringe nossa liberdade, nos humilha e dói. E você, que tipo de privações sofre ou já sofreu só por ser mulher?

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